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Crescem os negócios sustentáveis

26 outubro 2009 - 00h00Por JB Online

BRASÍLIA - Desenvolvimento sustentável. A expressão está na boca de todos. Mas ruralistas e ambientalistas não conseguem definir um código florestal que coloque em prática a ideia, assim como os países ricos e os em desenvolvimento não conseguem, a dois meses da Conferência de Copenhague, chegar a um acordo de mitigação de gases estufa que não atrapalhe o desenvolvimento. Enquanto isso, pequenos e grandes empresários brasileiros mostram que é possível produzir de maneira sustentável e aumentar os lucros. A máxima vale para todos os ramos, da exploração da madeira à produção de carne.
Pioneiro no mercado de carne orgânica, o frigorífico Friboi trabalha desde 2004 com uma linha de carnes oriundas de animais criados em pasto sem agrotóxico ou adubação química e tratados com medicamentos homeopáticos. A fazenda onde fica o rebanho orgânico é toda certificada. Para isto, além dos cuidados específicos com o gado, ela precisa respeitar a reserva legal e dar uma atenção maior à água. Todo o cuidado extra gera um custo maior. A produção orgânica custa 30% a mais. Este valor é repassado ao produto. Ainda assim, a demanda está crescendo 20% ao ano, segundo o gerente de Marketing da Friboi, Flávio Saldanha.
– Além de buscar uma alimentação mais saudável, as pessoas começam a procurar um produto que cumpra com sua responsabilidade ambiental – afirma Saldanha.
De acordo com a organização não-governamental Amigos da Terra-Amazônia, uma pesquisa realizada em 2006 pelo Ministério do Meio Ambiente mostrou que os entrevistados tinham 0% de noção do que era a certificação internacional de sustentabilidade, conhecida como selo FSC ou selo verde. Essa mesma ONG lembra que um levantamento recente, feito pelo Datafolha, mostrou que 20% da população já sabe do que se trata a certificação. Nele, 80% dos entrevistados afirmaram estar dispostos a pagar mais caro por um produto sustentável.
Mudança
A informação levou mais empresas a procurarem a Amigos da Terra na intenção de se filiarem na rede de compradores certificados. Ao ingressar na rede, o empresário se compromete a dar prioridade a fornecedores de produtos comprovadamente sustentáveis. Criada há oito anos, a rede já conta com 71 associados.
As madeireiras, que sempre forram vistas como as vilãs do desmatamento, já começaram a procurar o caminho da sustentabilidade. A exportação tem sido a solução encontrada pela maioria para conseguir trabalhar com madeira controlada ou certificada sem sucumbir à concorrência desleal das madeireiras que insistem em explorar a floresta sem critérios e vender a madeira de forma ilegal.
Com 430 mil hectares de florestas manejadas no Pará, sendo 67% certificadas, a Cikel Madeiras trabalha com madeira de manejo florestal. A pratica consiste em explorar a floresta com impacto reduzido. Com isso, enquanto a lei permite que sejam exploradas 30 metros cúbicos de madeira por hectare, no manejo explora-se no máximo 20 metros cúbicos por hectare e as árvores ocas são poupadas.
Há três anos, a madeira certificada custava 30% a mais. A porcentagem caiu para cerca de 10%, segundo a gerente de meio ambiente da Cikel, Wandreia Betz, principalmente pelo crescimento da madeira manejada da África. No rumo da sustentabilidade, a Cikel encontrou novos caminhos e expandiu os negócios: começou a usar os resíduos florestais para produzir carvão sustentável. E será justamente este carvão que abastecerá a siderúrgica comprada recentemente pela empresa em Marabá.
Apesar de mais cara, a exploração da madeira por manejo não está ao alcance apenas dos grandes empresários. A Cooperfloresta, no Acre, é um exemplo. Ela reúne quatro das dez comunidades da Amazônia que receberam o selo verde. O diretor superintendente, Evandro Araújo, explica que as comunidades começaram a trabalhar o manejo em 1996 e com a exploração consciente derrubam no máximo duas árvores por hectare. Como a madeira oriunda do manejo costuma ser de melhor qualidade e o mercado está mais exigente quanto ao respeito do fornecedor com o meio ambiente, as famílias dessas comunidades conseguem ter hoje um salário anual de R$ 8 mil. Antes de trabalharem com madeira certificada, essa renda dificilmente ultrapassava R$ 2 mil.
Famílias extrativistas são mais valorizadas As atenções voltadas para o desenvolvimento sustentável e a busca por produtos explorados de forma ecologicamente correta têm proporcionado uma melhoria substancial na qualidade de vida das famílias que vivem do extrativismo. A fábrica de preservativos Natex, no Acre, por exemplo, tem na região 700 famílias que fornecem o látex. O valor pago pelo produto é 250% maior do que seria pago pela indústria dos pneumáticos, segundo a responsável pela Natex, Dirley Bersch.
Diretora de Extravismo do Ministério da Saúde, Cláudia Calori afirma que a política de preços mínimos para os produtos extrativistas acabou com a relação comercial injusta que havia entre as famílias extrativistas e os compradores:
– Agora essas famílias estão construindo uma renda fixa. Antes precisavam trocar seus produtos por produtos de necessidades básicas.

Segundo a diretora, essas famílias sempre tiveram a preocupação de conservar a floresta para seus filhos, mas não tinham estrutura para vender os produtos. A necessidade do mercado por produtos sustentáveis trouxe renda e mudou a situação.