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Vírus devasta plantios africanos de mandioca

21 junho 2010 - 00h00Por Folha de S. Paulo.

Lynet Nalugo tirou uma raiz de mandioca da terra e a abriu. Sob a casca, a carne branca da mandioca estava marcada por manchas marrons necrosadas -tão obviamente doente quanto um pulmão tuberculoso.

"Nem os porcos aceitam comer isto", disse ela.

A planta era o que Nalugo descreveu como uma "2.961", ou seja, a única variedade local cultivada para resistir ao vírus do mosaico africano, uma doença da mandioca que provocou fome generalizada na África na década de 1920.

Mas essa não era a doença do mosaico, que apenas atrofia as plantas. O campo de Nalugo tinha sido atacado por um vírus novo e mais prejudicial, chamado vírus do listrado castanho, devido às marcas que deixa nos caules.

O novo vírus tem devastado plantações de mandioca em uma grande área em torno do lago Vitória, ameaçando milhões de africanos orientais que cultivam a mandioca como alimento básico.

Apesar de o vírus já ser visto há 70 anos na região costeira, em 2004 uma versão mutante dele emergiu no interior da África e "desde então se espalhou de maneira explosiva e pandêmica", segundo Claude M. Fauquet, diretor do Centro Donald Danforth de Ciência de Plantas (EUA). "A rapidez com que o vírus vem se espalhando é inusitada, e os agricultores estão desesperados."

Dois anos atrás, a Fundação Bill e Melinda Gates convocou especialistas e percebeu que o vírus do listrado castanho "estava deixando muita gente alarmada", segundo Lawrence Kent, do programa de agricultura da fundação, que já deu US$ 27 milhões a agências humanitárias e cientistas para combater a doença.

A ameaça pode se globalizar. A mandioca é a terceira maior fonte de calorias no mundo, perdendo apenas para o arroz e o trigo. É consumida por 800 milhões de pessoas na África, na América do Sul e na Ásia. O perigo do vírus já foi comparado ao do Phytophthora infestans, a praga que atingiu as batatas europeias na década de 1840, desencadeando uma fome generalizada que matou possivelmente 1 milhão de pessoas na Irlanda. O fato mudou a história de todos os países de língua inglesa.

A mandioca sacia a fome, mas não é muito nutritiva. Ainda assim, os agricultores de subsistência dependem da mandioca porque "ela é altamente tolerante às secas e ao descuido", disse Edward Charles, líder de um consórcio de seis países com sede no Quênia e que tem o apoio da Fundação Gates. Por exemplo, disse ele, mesmo quando os agricultores estão demasiado enfraquecidos pela malária para conseguir arrancar o mato de suas plantações, estas sobrevivem.

E os tubérculos podem ser deixados sob a terra por até três anos, de modo que, se uma seca matar as plantações de milho ou feijão, os agricultores e suas famílias ainda conseguirão afastar a fome. Mas a mandioca é atingida por mais de 20 pragas e doenças.

Fauquet teme que o listrado castanho atravesse o Congo e chegue à Nigéria, o maior produtor mundial de mandioca, porque os agricultores vendem mudas uns aos outros e por causa dos frouxos controles de fronteira.

Ele não prevê que o vírus atravesse o oceano e chegue a Tailândia, Indonésia, China ou Brasil, porque não há comércio mundial de mudas e há poucos voos diretos entre a África e a Ásia ou América do Sul.

Em Uganda, pelo fato de haver tão poucos agentes agrícolas do governo, o consórcio de Charles (chamado a Iniciativa da Mandioca) está montando sua própria rede paralela. Seus agentes não têm poderes para destruir uma plantação ou apreender mudas doentes. Mas contam com minicomputadores equipados com softwares que ensinam os agricultores a reconhecer a doença.
Também podem identificar, com GPS, a localização de um campo suspeito, tirar fotos e enviá-las desde qualquer lan house.

Para apoiar os agricultores, a iniciativa os ajuda a formar clubes de poupança, oferecendo orientações e uma caixa de aço para guardar economias.

Os membros dos clubes colocam alguns dólares por semana nas caixinhas e oferecem créditos de US$ 50 ou US$ 100 para projetos geradores de dinheiro, como a compra de galinhas ou de moldes para a produção de tijolos. No final do ano eles dividem os lucros, que podem ser grandes, já que a taxa de juros é de 120%.

Lynet Nalugo talvez precise tomar um empréstimo do clube neste ano. Ela estima que, se sua plantação de mandioca tivesse estado saudável, poderia tê-la vendido por US$ 500. Em vez disso, "a perda da mandioca está nos dando prejuízo: vamos ter que comprar comida".