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AGRICULTURA

Produtividade da soja cresce 11,1% a cada avanço nos níveis de manejo do solo

A metodologia do Zoneamento Agrícola de Risco Climático - Níveis de Manejo (ZarcNM) foi validada em Mato Grosso do Sul

01 outubro 2026 - 09h37Por Sílvia Zoche Borges | Embrapa Agropecuária Oeste

Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste (MS) validaram, em condições reais de campo, a eficiência da metodologia Zoneamento Agrícola de Risco Climático - Níveis de Manejo (ZarcNM). Os resultados evidenciam uma relação linear entre a qualidade do manejo do solo e o desempenho produtivo da soja. Para cada nível de avanço no manejo conquistado pelo produtor, observa-se um aumento médio de 11,1% na produtividade relativa da cultura. A metodologia classifica os talhões (unidades de cultivo) em quatro níveis de manejo – NM1 (menor qualidade) a NM4 (maior qualidade).

A pesquisa foi conduzida em um experimento de longa duração instalado há 30 anos no município de Dourados (MS) e analisou 28 safras consecutivas de soja , entre 1998 e 2026. Ao todo, mais de 4,3 mil pontos georreferenciados foram avaliados. Nesses pontos, ao longo dos anos foram registrados valores de análises químicas, da cobertura do solo e da produtividade dos cultivos, o que possibilitou aplicar a classificação dos níveis de manejo (NM) e relacioná-la às produtividades da soja em cada ponto e safra.

O trabalho comprova que o manejo do solo é importante para determinar o sucesso da produção de soja. Áreas onde são adotadas práticas conservacionistas apresentam maior produtividade, enfrentam melhor os períodos de estiagem e são menos vulneráveis a riscos de perdas, o que confirma a relevância da conservação do solo para a sustentabilidade da agricultura.

O pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste, reforça que a forma como o solo é manejado influencia diretamente a capacidade das lavouras de suportar períodos de deficiência hídrica. "Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas", afirma.

Avaliação de risco climático

Tradicionalmente, o Zarc considera fatores como clima, tipo de solo, época de semeadura e ciclo das cultivares para indicar as janelas de semeadura com menor risco de perdas. A inovação do ZarcNM consiste em acrescentar a qualidade do sistema de manejo do solo adotado pelo agricultor a essa análise. A metodologia classifica os talhões em quatro níveis de manejo, identificados como NM1, NM2, NM3 e NM4.

O NM1 representa sistemas de menor qualidade, geralmente associados ao preparo convencional, ao monocultivo da soja e à degradação gradual do solo. Já o NM4 corresponde ao nível mais elevado, caracterizado por práticas conservacionistas, como o sistema plantio direto (SPD) e a integração lavoura-pecuária (ILP).

Na prática, quanto maior o nível de manejo, maior a capacidade do solo de funcionar como uma espécie de reservatório natural de água, reduzindo os efeitos provocados pelos veranicos – períodos sem chuvas que ocorrem em plena estação chuvosa, frequentes em Mato Grosso do Sul.

Modelos de produção
A validação do ZarcNM foi realizada com base em três modelos distintos de produção agrícola. O primeiro correspondeu ao preparo convencional, caracterizado pelo monocultivo da soja e pelo revolvimento constante do solo por meio de gradagens (preparo do solo que ocorre com o uso de grades de discos antes da semeadura).

O segundo envolveu o sistema plantio direto, no qual o solo permanece sem revolvimento e ocorre a rotação de diferentes culturas ao longo dos anos.

O terceiro avaliou a integração lavoura-pecuária, modelo em que a soja é alternada com pastagens, o que promove melhoria das condições físicas, químicas e biológicas do solo.

Os pesquisadores analisaram indicadores relacionados a atributos químicos, cobertura do solo, diversidade de culturas e tempo sem revolvimento do solo.

Avanço no manejo, maior produtividade
A pesquisa mostra que, para cada nível de qualidade do manejo conquistado pelo produtor – por exemplo, transicionar do NM2 para o NM3–, ocorre aumento médio de 11,1% na produtividade relativa. As médias obtidas durante as 28 safras foram expressivas, com produtividade relativa de 44,0% no NM1 ; de 55,1% no NM2; de 66,2% no NM3 ; e de 77,2% no NM4.

Ao longo do período avaliado, a produtividade variou bastante como ocorreu na região de Dourados, com valores, na maioria das vezes, oscilando entre duas e cerca de 90 sacas por hectare, resultado da interação entre a ocorrência de chuvas, o momento e a duração de veranicos e as práticas de manejo do solo.

Nos anos mais favoráveis, algumas áreas ultrapassaram 80 sacas por hectare. Em contraste, durante eventos climáticos extremos, sistemas conduzidos sob preparo convencional chegaram a registrar perda total da produção. 

"O estudo comprova que investir na qualidade do manejo significa reduzir riscos, aumentar a estabilidade produtiva e preparar o sistema para enfrentar eventos climáticos adversos", destaca Salton.