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PECUÁRIA

Melhoramento genético do futuro já começou nas propriedades rurais do Brasil

Seminário da ANCP mostra sintonia com a pauta internacional e não se omite na hora de provocar os pecuaristas pelas mudanças inevitáveis

28 julho 2022 - 10h57Por DBO Rural

Em um futuro do melhoramento animal que começou, ontem, não há espaço para dar as costas a dois sustentáculos: sustentabilidade e qualidade do produto final carne. Essa foi a tônica das palestras e debates do “26º Seminário Nacional de Criadores e Pesquisadores”, realizado em 22 de julho, em Ribeirão Preto (SP).

O tema central do encontro, “Genética de excelência para a lucratividade”, olhou a conjuntura da pecuária seletiva sob aspectos técnicos e mercadológicos. Carlos Viacava, pecuarista e vice-presidente da entidade organizadora, a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), parte do princípio que “toda a evolução genética que se promover deve estar alinhada com as necessidades do meio ambiente”.

Ele se refere a uma demanda dos consumidores mais exigentes, dentro e fora do País, que querem um produto com baixa emissão de gases efeito estufa (GEE), considerando o bem-estar animal, da melhor qualidade e com custo acessível, principalmente no mercado interno.

“Para isso, a tecnologia deve nos ajudar a produzir mais com menos recursos e em um ciclo menor”, pondera. A coordenadora da Área Técnico Comercial da ANCP, Lilian Roberta Matimoto Nakabashi, médica veterinária, sustentabilidade é um tema internacional e o Brasil precisa ocupar um papel de protagonismo nesse cenário, com prática certeira e investimentos.

“Da nossa parte, a ANCP, por exemplo, nesse momento reformula suas ferramentas de avaliação (certificações) para meio ambiente”, reforça. Nakabashi entende que este “é um diálogo sério e que a pecuária de vanguarda precisa provocar entre seus pares”. Um dos pontos é buscar “unidade para se construir voz ativa diante dos fatos verdadeiros sobre a produção bovina de corte”; ou seja, dar nome aos bois de quem trabalha bem ou mal à sociedade.

Para Viacava, essa visão já prevalece, pois “há inúmeros trabalhos e experiências de campo reduzindo ainda mais o ciclo pecuário, promovendo precocidade e o consequente aumento da taxa de desfrute”. “Dessa forma, emite-se menos GEE e até torna a fixação de carbono positiva. Então, o futuro do melhoramento está atrelado à preservação ambiental”, ratifica.

Carne de melhor qualidade – Outra diretriz importante é a qualidade da carne que produzimos, destaca o criador. Além das DEPs existentes, outras ligadas a essa característica devem surgir como, por exemplo, a da maciez, do marmoreio, entre outras, somando-se às existentes como área de olho de lombo (AOL) e espessura de gordura subcutânea (EGS), mensuradas a partir de ultrassonografia de carcaça.

Muitas palestras e questionamentos trouxeram à baila a carne que produzimos e a que queremos produzir. O boi-China é o limite ou a atenção aos pequenos nichos de mercado é tudo? Como a pecuária seletiva, com a genômica, pode ajudar a responder às demandas por qualidade.

Nesse sentido, Viacava enfatiza que o avanço na genômica está permitindo saltos importantes na identificação de animais superiores para carne de qualidade, para o Nelore e em uma frente multirracial; isto é, no apontamento de quais são os melhores bovinos entre as várias raças que disputam o mercado.

Pelo lado de desempenho zootécnico, novas também são esperadas, como para o caráter mocho (importante no manejo e na redução de estresses na fazenda), para facilidade de parto e para lucratividade, procurando traduzir o ponto ideal para abate de um bovino terminado em confinamento.

Nakabashi ainda salienta as novas Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) integrantes de índices bioeconômicos como MGTe de cria, recria, confinamento e F1, todas para auxiliar o produtor em diferentes sistemas de produção, na hora de escolher machos e fêmeas mais produtivos para deixarem suas genéticas no rebanho.

Mais de 250 participantes – Após três anos de interrupção por conta da pandemia, o tradicional evento retornou no formato presencial reunindo criadores, pesquisadores, técnicos agropecuários, empresas da área de genética, professores e estudantes de ciências agrárias.

A palestra de abertura do encontro foi apresentada pelo professor e pesquisador da Universidade de Wisconsin, em Madison (EUA), Daniel Gianola, que falou sobre a história das avaliações genéticas, abordando sua evolução desde Henderson até a Avaliação Multirracial.

Na sequência, dentro do tema do “Painel 1 – O mercado pecuário e a sustentabilidade”, o pecuarista e ex-secretário de Produção e Comércio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Pedro de Camargo Neto, apresentou palestra sobre “Desafios Regulatórios da Pecuária: Ontem e Hoje”.

Ainda no Painel 1, “Incrementos na produtividade pecuária de corte com o uso de protocolos de Baixo Carbono”, foram trazidos pelo pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Roberto Giolo de Almeida, que ressaltou a forte pressão internacional sofrida pela pecuária de corte brasileira por causa da pegada de carbono.

Abrindo o “Painel 2 – Seleção de zebuínos para qualidade da carne”, o gerente de Treinamento e Projetos Corte da ABS Pecplan, Cristiano Ribeiro, falou sobre “Mudança da demanda do mercado de genética da última década”, abordando a evolução das tecnologias e práticas que constituem o melhoramento genético voltado para rebanhos de corte.

“Seleção genética para melhoria da qualidade da carne brasileira” foi o tema da segunda palestra do Painel 2, apresentada pelo pesquisador da Embrapa Cerrados e 2º vice-presidente da ANCP, Cláudio Magnabosco, que traçou um panorama da pecuária de corte do Brasil situando os principais players no mercado, tanto produtores quanto exportadores.

Magnabosco abordou os principais gargalos da pecuária de corte, como a produção de carne de qualidade em uma pecuária pautada majoritariamente a pasto, sistemas de integração lavoura-pecuária, boi de ciclo curto, entre outros. Também apresentou os métodos de avaliação e os progressos já obtidos, seleção genômica, além de sugerir inclusão da maciez da carne e outras características relacionadas à qualidade da carne como critérios de seleção.

Na última palestra do evento, o gerente Global de Tecnologia de Bovinos de Corte da Cargill, Pedro Veiga, falou sobre “Quais são os desafios para a produção de carne de qualidade”, abordando os vários processos, desde o momento em que a vaca emprenha até a chegada da carne ao prato do consumidor”.

O seminário ainda contou com dois momentos para discussão em plenário ao final dos dois painéis. Em mesa redonda, palestrantes e os moderadores Roberto Zancaner, pecuarista, e Angélica Pereira, professora da USP Pirassununga, coordenaram as perguntas feitas pelos participantes.

Homenagens

Durante a programação, a entidade também prestou homenagens a pessoas que se destacaram na pesquisa e ensino em melhoramento genético. O professor Daniel Gianola recebeu a homenagem de Mérito Pesquisador Honorário ANCP. O também professor, Joanir Pereira Eler, professor da USP que se aposenta este ano, recebeu o Mérito Reconhecimento ANCP. Já o pesquisador Fernando Baldi recebeu o Mérito Pesquisador ANCP.

Além disso, os proprietários dos touros aprovados na Reprodução Programada Genômica de 2019 também foram homenageados, recebendo o Certificado de Aprovados na Reprodução Programada de seus animais. Foram eles: Júlio Roberto M. Bernardes, Marco Aurélio O. Fernandes e José Roberto Hofig Ramos.

Para o presidente da associação, professor Raysildo Lôbo, foi um encontro muito importante em um ambiente alegre, que reuniu muitos consultores, criadores, professores e outros profissionais. “Todas as palestras, com temas relacionados às questões de sustentabilidade e qualidade da carne, trouxeram mais brilho e conhecimento ao nosso encontro”, finalizou.