A ocorrência do El Niño até o início de 2027 também atinge a piscicultura. De acordo com monitoramentos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno tem probabilidade superior a 90% de permanecer ativo nos próximos meses, com alta chance de atingir a categoria “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro do ano que vem. “Ele impacta a produção de peixes de cultivo. Com o aquecimento da água, há redução da disponibilidade de oxigênio nos viveiros, o que altera o comportamento dos peixes e exige mudanças na alimentação para preservar saúde e produtividade dos animais”, explica o zootecnista Cleber Daniel Almeida, consultor técnico comercial da MCassab Nutrição e Saúde Animal.
Os peixes são animais pecilotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal acompanha a do ambiente. Quando a água aquece além da faixa ideal para cada espécie, o organismo entra em estresse e passa a priorizar funções vitais, reduzindo, naturalmente, o consumo de alimentos. Ao mesmo tempo, a água quente retém menos oxigênio dissolvido e o metabolismo acelera, o que aumenta ainda mais a demanda por esse recurso.
“Quando o oxigênio dissolvido diminui, o peixe consome menos porque a digestão também consome oxigênio. Mesmo que ele continue ingerindo ração, o aproveitamento dos nutrientes fica comprometido, já que boa parte da energia passa a ser direcionada para manter o organismo funcionando diante do estresse térmico. Isso afeta o ganho de peso, a conversão alimentar e o desempenho do lote”, complementa Cleber.
Além da redução do consumo de ração, períodos prolongados de calor favorecem a proliferação de bactérias e outros microrganismos, aumentam o risco de doenças e comprometem a qualidade da água. Em situações mais difíceis, principalmente durante a madrugada, quando os níveis de oxigênio costumam atingir os menores níveis do dia, podem ocorrer episódios de hipóxia (que é o termo técnico da deficiência de oxigênio nos tecidos) e mortalidade de peixes.
“Durante o El Niño, a água muda e os peixes sentem esses efeitos. Por isso, o produtor precisa ajustar alguns manejos, como oferecer a ração nos horários mais frescos do dia, dividir melhor a alimentação e escolher dietas que ajudam os animais a aproveitar melhor os nutrientes. Também é importante acompanhar de perto a qualidade da água, principalmente a temperatura e o nível de oxigênio, além de utilizar recursos como aeradores quando necessário”, finaliza o especialista da MCassab.





