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Boiada come capim nativo e ajuda a conservar ambiente do Pantanal

24 novembro 2017 - 12h44Por Globo Rural

A pecuária de corte é fundamental para a conservação do meio ambiente do Pantanal e uma das atividades que auxiliam a sobrevivência e a manter o homem na região há mais de dois séculos. Estudiosos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Pantanal) são unânimes: a maneira como a criação e a engorda de bois são praticadas permite a preservação de 82% da planície pantaneira – nenhum outro bioma do país perdeu apenas 18% de sua área natural. É que a boiada cresce no pasto e come o mesmo capim nativo há mais de 200 anos. As boas práticas produtivas excluem a utilização de produtos químicos no solo e de remédios alopáticos e antibióticos na cura do gado. A homeopatia é largamente utilizada. Rios e igarapés são mais protegidos e o boi fornece carne saudável e saborosa.

 
“Não há agressão à natureza na planície. Animais convivem pacificamente entre si e com o homem sem ameaça à biodiversidade”, afirma Jorge Antonio Ferreira de Lara, chefe-geral da Embrapa Pantanal, de Corumbá (MS). Já na parte alta do Pantanal, a ocupação do solo pelas lavouras de grãos e pela cana provoca danos como a redução de biodiversidade e o comprometimento das nascentes, dizem os especialistas.
Há anos, a Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO), de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, produz uma carne orgânica e sustentável respeitando o meio ambiente, o bem-estar animal e a qualidade de vida do homem. O produto é distribuído pela Korin, empresa brasileira que opera somente com alimentos naturais. A partir do mês passado, a ABPO deu um passo decisivo ao conquistar um protocolo de certificação que irá valorizar ainda mais a pecuária do Pantanal. Comandaram a iniciativa a ABPO e o WWF, ONG ambiental, e o documento foi assinado por Leonardo Leite de Barros, que preside a entidade de Mato Grosso do Sul, e pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). A fiscalização cabe ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
 
É o primeiro protocolo de certificação sustentável com esse foco no Brasil, diz Leonardo. “Para nós, foi a realização de um sonho: aumentar a presença no mercado e valorizar o homem pantaneiro, sua cultura e os processos produtivos que há mais de 200 anos preservam o bioma.”
 
Segundo ele, as regras são assentadas em três pilares: 1) o animal tem de nascer no Pantanal; 2) o gado deve comer pasto nativo. São 12 tipos de gramíneas que só vicejam na região; 3) conservação do meio ambiente e foco no bem-estar do gado.
 
A ABPO é formada por 18 propriedades espalhadas pelo Pantanal. O rebanho total é de 80 mil animais e o abate ao mês gira em torno de 500 a 600 animais. Segundo Leonardo de Barros, a ABPO atua em uma área certificada de 110.000 hectares no Pantanal. “A tendência é aumentarmos cada vez mais o espaço, por conta da demanda acentuada pela carne”, diz ele.
 
A carne sustentável do Pantanal é distribuída pela Korin para casas como Zaffari, Wessel e outras. São nichos de mercado, portanto, e que pagam um percentual a mais que varia de 2% a 12%.
 
De acordo com Reginaldo Morikawa, superintendente da Korin, a procura pelo produto realmente tem aumentado. “Começamos distribuindo 5 toneladas de carne ao mês, em 2015. Hoje, estamos em 100 toneladas mensais.” Reginaldo afirma que a marca Pantanal também funciona como um poderoso atrativo.
 
A previsão da empresa é crescer o dobro dentro de dois anos. O executivo acrescenta que houve um incremento na comercialização de carne orgânica e sustentável após a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em março deste ano e que acusou algumas marcas de adulteração do produto.
 
No Pantanal, o gado é criado no meio de animais selvagens e come junto com outros herbívoros. É comum ver o boi dividindo espaço nas pastagens com antas, capivaras e veados. “Quando o consumidor faz a opção pela carne saudável que produzimos, ele está também ajudando a conservar o Pantanal e sua tradição cultural”, afirma Leonardo.
 
A parceria entre uma ONG e o setor produtivo é bastante comentada, afinal, ambos deixam de lado antigas diferenças. “Trabalhar em conjunto com a produção é importante para que nossa missão de produzir em harmonia com a natureza seja alcançada, garantindo a sustentabilidade socioambiental e econômica das futuras gerações”, diz Júlio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF. A ONG atua na região desde 1998.