Menu
Busca segunda, 19 de outubro de 2026
Busca
(67) 3345-4200
Campo Grande
Previsão do tempo
28º
REPOSIÇÃO

Bezerro valorizado posiciona a cria como protagonista da pecuária

Bezerro de maior potencial: a eficiência da cria que dá fôlego à margem de recriadores e terminadores, mesmo diante da reposição valorizada

19 outubro 2026 - 17h00Por José Roberto dos Santos
Bezerro valorizado posiciona a cria como protagonista da pecuária

De dois anos para cá, caminhões lotados de vacas rumo aos frigoríficos passaram a ser uma cena comum nas estradas. O gado saindo não por estar pronto, mas para fazer fluxo de caixa.

Passado o susto, veio a conta: menos fêmeas no campo significam menos bezerros nascendo e o resultado está estampado nos boletins de mercado, com a arroba do bezerro rodando entre R$ 450 e R$ 500, valorização superior à arroba do boi gordo e que amplia, ainda mais, o desafio para recriadores e confinadores. Estaria o mercado, em 2026, passando por uma virada de ciclo?
Tal cenário no preço de reposição traz uma pergunta feita, regularmente, por recriadores e confinadores: como pagar tão caro por um animal que ainda vai levar meses para virar carne, e ter boa margem de lucro?

Para o consultor de Serviços Técnicos da Agroceres Multimix, José Rodolfo Reis de Carvalho, a resposta não está em torcer pela queda do preço, mas em produzir um bezerro de potencial que justifique o valor pago por ele.

O boi 777 como referência
É nesse contexto que ganha força o conceito do boi 777: um animal capaz de chegar a 21 arrobas em até 24 meses. Mais do que uma meta técnica, o sistema virou régua para justificar o ágio pago no bezerro.

“Fazer o boi 777 é trazer eficiência suficiente que permite pagar bezerro nesses preços de mercado”, explica José Rodolfo.

E é justamente na cria que o jogo começa a ser decidido. Segundo o consultor, quem tem eficiência no sistema de cria aproveita melhor este momento de alta.

A urgência por essa eficiência na cria também nasce de uma pressão que vem das fases subsequentes.

Nos últimos anos, a terminação intensiva, seja no confinamento ou na TIP, avançou rapidamente no Brasil, exigindo giros cada vez mais rápidos. Isso forçou a recria a acelerar, dando origem à RIP: a Recria Intensiva a Pasto.

“Agora, a cobrança por eficiência recai sobre a cria”, diz o consultor. O resultado é uma virada de chave na forma de pensar a fazenda: não basta mais um bezerro por vaca, é preciso mais vacas produzindo bezerros mais pesados, pensando agora em quilos de bezerro por hectare, contemplando, assim, a taxa de lotação da fazenda.

A vaca no centro da conta
A eficiência produtiva na cria começa no manejo nutricional da vaca e na avaliação da condição corporal das vacas ao desmame, que permite traçar o quanto elas precisam recuperar em peso vivo para atingirem o Escore de Condição Corporal (ECC) ao parto em torno de 3,0 a 3,5, numa escala de 1 a 5.

Um detalhe técnico, segundo José Rodolfo, não pode passar despercebido: escore corporal de vaca recupera-se no pré-parto. “Neste momento, o particionamento de energia favorece a deposição de tecidos. No pós-parto, a prioridade passa a ser a lactação”, esclarece.

“Parindo nesse escore e atravessando bem o momento pós-parto, o retorno à atividade reprodutiva é mais rápida, mantendo, assim, o ciclo de emprenhar cedo e parir no cedo”, explica.

Por isso, a estratégia nutricional muda conforme a necessidade. Após o desmame, não é permitido que a vaca perca peso durante a seca e o produtor deve usar esta etapa para recuperar a condição corporal pensando na próxima estação de monta e, indiretamente, na programação fetal do bezerro.

Vale ressaltar que neste período de seca, os pastos, normalmente, apresentam qualidade nutricional inferior, o que torna indispensável um planejamento nutricional a fim de corrigir estas deficiências e, ainda, atender a gestação, o que pode ir desde uma mineralização mais simples, com mineral ureado, até mesmo passando por um nível de suplementação maior, caso haja necessidade de maior recuperação da condição corporal.

Do nascimento ao desmame
“Há cerca de 10 anos, já falávamos em sala de aula sobre a relação de desmama, no entanto, hoje ainda no campo se fala apenas em taxa de prenhez. Precisamos avançar mais no monitoramento de quilo de bezerro produzido por vaca/ano”, observa o especialista.

Este é um índice que contempla a eficiência da matriz e os custos com a mantença deste animal. Esse indicador mostra que duas vacas podem produzir o mesmo “kg de bezerro”, porém, com demandas nutricionais diferentes ao longo do ano.

Aqui, começa o entendimento sobre taxa de lotação nas fazendas, onde trabalhar um rebanho de peso maduro menor permite trabalhar mais animais por área, trazendo, então, um complemento muito importante a este índice que será a produção por área.

A nova fronteira da eficiência da cria passa, portanto, a agregar o entendimento de produzir mais quilos de bezerro por hectare.

“Ao trabalhar peso maduro do rebanho e manejo nutricional e reprodutivo da cria, diretamente trabalharemos para a produção de um bezerro do cedo”, aponta José Rodolfo. “É comprovado que ele ganha peso com mais eficiência, desmama mais pesado e a fêmea, por sua vez, terá melhor fertilidade quando vai para a reposição”, explica.

Estes efeitos se estendem até à terminação e abate dos animais, com bovinos produzindo carcaças mais pesadas e de melhor qualidade.

Em números absolutos, o bezerro do cedo desmama com até 2@ a mais. Essa mesma vantagem se mantém na recria, chegando a um boi magro até 2@ mais pesado. Já no confinamento, estes animais podem apresentar 150g de GMD de carcaça a mais, reduzindo também o tempo de confinamento.

Demais estratégias para aumentar a taxa de lotação dentro da fazenda seria melhorar o manejo de pastagens durante o período de águas, tendo a preocupação com a produção de uma reserva de volumoso para o período da seca, seja com técnicas de diferimento ou produção de volumoso para suplementação em cocho.

Do creep feeding à desmama
Enquanto a vaca se prepara para o próximo ciclo, o bezerro ao pé também recebe atenção redobrada. O creep feeding, tecnologia nutricional oferecida ainda na fase de amamentação, ajuda a melhorar a taxa de ganho de peso e entrega, aos 7 ou 8 meses, um bezerro mais pesado e preparado para uma recria intensiva.

“Esse mesmo bezerro do cedo, bem desmamado e bem recriado, chega à terminação em condições de entregar desempenho zootécnico e financeiro”, afirma José Rodolfo.

Para o consultor, essa é a verdadeira eficiência de produção pensando na cadeia como um todo: “A cria está na base de tudo”, resume José Rodolfo.

Em um mercado que cobra cada vez mais por um bezerro de qualidade, fazer essa fase bem-feita deixou de ser detalhe técnico para se tornar condição de sobrevivência para toda a cadeia da pecuária de corte.