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ENTREVISTA | ALESSANDRO COELHO

"O leite é a única renda com frequência mensal no meio rural"

Na volta da ExpoLeite após 14 anos, presidente do núcleo fala da meta de produzir 30% mais até 2030, da falta de mão de obra para o gado de leite e do peso dos impostos no preço

13 outubro 2026 - 16h25Por Jornal A Crítica

Depois de cerca de 14 anos sem uma edição realizada pela Acrissul, a ExpoLeite MS volta ao Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande, de quarta-feira (25) a domingo (29) de novembro.

Para falar da feira e dos desafios de quem vive do leite em Mato Grosso do Sul, o presidente do Núcleo de Criadores de Girolando de MS, Alessandro Coelho, concedeu entrevista nesta terça-feira (13) ao Giro Estadual de Notícias.

Leia os principais trechos da conversa:

A Crítica: A ExpoLeite volta depois de 14 anos sem uma edição realizada pela Acrissul. Como surgiu a retomada da feira?
Alessandro:
No ano passado, junto com a prefeitura, fizemos o festival do leite, de economia criativa. Este ano era para ser só o festival e acabou virando a ExpoLeite. O Guilherme [Bumlai] pulou dentro e a gente decidiu fazer uma feirona de gado, com Gir e Girolando de volta à pista em Campo Grande. Vem muita gente de fora do estado, e o pessoal da Bolívia, depois da feira de Santa Cruz, já está pedindo informações. A feira começa antes do dia 25, com o torneio leiteiro, que Campo Grande não tem há muito tempo. Nossa única preocupação é a chuva, porque novembro é mês de chuva.

A Crítica: Por que este é um momento importante para a cadeia leiteira do Estado? O que o setor espera recuperar com a volta da ExpoLeite?
Alessandro:
O setor veio encolhendo ao longo de 20 anos. Agora a feira retorna junto com os programas do governo do Estado, o Pro-Leite e o Extra-Leite, que paga até 30 centavos a mais pelo litro do leite de qualidade. É muita diferença. Pequenos produtores estão indo para a genética de qualidade e vendo que, com o Girolando, dá para ter boa produtividade com custo relativamente baixo. E o leite é a única renda com frequência mensal no meio rural; todas as demais são sazonais. A conta de luz, o telefone e a internet chegam todo mês, e o leite dá essa segurança entre uma safra e outra.

A Crítica: Já entrevistei produtores de leite aqui e em Minas Gerais, o estado que mais produz, e a queixa sobre a dificuldade de produzir é parecida. Qual é hoje o retrato da produção de leite em Mato Grosso do Sul?
Alessandro: Hoje a produção é muito restrita: a nossa média é de 100 litros por produtor. Por isso vamos entregar ao governador, durante a feira, um projeto para aumentar a produção em 30% até 2030. Parece muito, mas passar de 100 para 130 litros exige só melhoramento genético e uma pequena acomodação na alimentação. Mato Grosso do Sul produz menos da metade do leite que consome e compra de outros estados. Não estou falando de vender para fora, e sim de atender o mercado interno. O leite é uma commodity com preço relativamente estável e, com o fomento que temos aqui, é só fazer conta: é um bom negócio.

A Crítica: Na sua experiência, o que precisa acontecer para que a produção de leite seja mais competitiva entre os municípios e atraia mais investimentos para Mato Grosso do Sul?
Alessandro: O maior desafio é a mão de obra. Temos gente qualificada para o gado de corte, que se trabalha em lote e a cavalo. No leite, cada vaca é como se fosse um lote: o trato é individual, a pé, de segunda a segunda, com muito mais cuidado de limpeza. Se você der um grito com uma vaca de leite, ela já não produz naquele dia. É essa cultura que precisa mudar. Passando esse desafio, os laticínios estão aí: operam com subcapacidade, há indústrias fechadas por falta de leite, e a Semadesc busca quem reative essas fábricas, porque a curva do leite começou a subir.

A Crítica: E para quem tem pizzaria ou padaria e depende da muçarela, que não está barata? Existe uma estimativa de queda no preço desses produtos para o consumidor?
Alessandro: É difícil haver redução, porque as contas públicas demandam todo o recurso que vem dos impostos. Por incrível que pareça, a muçarela e o doce de leite pagam menos tributo que o leite in natura. O imposto vai se somando em toda a cadeia: no combustível, na energia do ventilador da ordenha, no milho, no sal mineral, no frete. No fim, aquilo que parece 12% chega a representar 50%. A cadeia chega cara no consumidor e remunera mal todo mundo. O necessário seria zerar os tributos da cesta básica. Na feira, comprando direto do produtor, você quebra elos dessa cadeia.

A Crítica: Além da programação técnica e dos negócios, o que o público vai encontrar na ExpoLeite?
Alessandro: A entrada é gratuita, tem estacionamento fácil, e você pode trazer a família e o cachorro. Vai ter shows regionais, programação cultural da prefeitura, campeonato de grafite com temas do agro e carros antigos, com prêmio para o mais exótico e o mais bem conservado. Para o Gir, que tem leite de alta qualidade e é a base do Girolando, mas não acompanha a produção dele, abrimos uma premiação especial de 5 mil reais para a campeã. A programação está no Instagram @expoleitems, que não deve ser confundido com o da ExpoLeite de Uberaba, e no site do Núcleo Girolando MS.