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Usinas mudam realidade de pequenas cidades em MS

01 outubro 2009 - 00h00Por Canal da Cana | Campo Grande News

Em Mato Grosso do Sul 70,5% dos municípios têm menos de 20 mil habitantes, segundo a última estimativa populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maioria dessas cidades tem a economia dependente da agricultura e da pecuária, mas, com a instalação de usinas de etanol e açúcar estão ganhando uma nova alternativa para se desenvolverem.
 
O número de plantas instaladas no Estado chega a 19, sendo que somente em 2009, cinco iniciaram o processamento, e, em 2008, outras três usinas. A previsão é que até o fim do ano, mais duas unidade entrem em operação, fazendo com que no encerramento desta safra o parque industrial sucroenergético sul-mato-grossense contabilize 21 indústrias.
 
Usina, sinônimo de progresso
A Angélica Agroenergia foi uma das usinas que entraram em atividade no ano passado, e que com pouco mais de um ano de moagem já e sinônimo de progresso para a população da pequena Angélica, município de 7.465 habitantes, segundo estimativa do IBGE, que fica a 210 quilômetros da capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, na região Sul do Estado.
 
A usina, uma unidade do grupo Adecoagro, fez com que o município, que dependia economicamente da agropecuária, tivesse uma nova alternativa para se desenvolver. O impacto de sua instalação foi tão positivo, que fez com que o Produto Interno Bruto (PIB) de Angélica crescesse 274%, saltando de R$ 62,6 milhões anuais para R$ 234,3 milhões.
 
A Angélica Agroenergia gera diretamente cerca de 2.100 empregos, o que representa quase um terço da população local. Entretanto, não beneficia apenas o município, na usina trabalham também funcionários de cidades próximas, como Ivinhema e Novo Horizonte do Sul. Em sua primeira safra a usina moeu 461,1 mil toneladas de cana e produziu 35,1 milhões de litros de etanol, mas a expectativa é que já no ciclo 2009/2010 chegue aos 2 milhões de toneladas.
 
Segundo o secretário de Finanças de Angélica, Roberto Teles da Silva, diversas empresas se instalaram na cidade a partir da implantação da usina. Muitas vieram para prestar serviço ou venderem para a indústria, mas algumas foram atraídas pelo potencial indireto que surgiu nas áreas de alimentação, bens de capital, saúde e educação, entre outras.
 
 “Se instalaram na cidade três lojas de móveis, dois supermercados, farmácias, um restaurante, uma transportadora e uma cooperativa de transporte”, comenta o secretário.
 
A importância da Angélica Agroenergia para o município é tamanha, que sozinha, a usina responde por 53% da arrecadação de impostos da cidade, o que significa que dos R$ 219,4 mil que a prefeitura obtém em média com os tributos mensalmente, R$ 117,8 mil, vem da indústria.
 
Além do aumento da arrecadação e geração de empregos, o secretário comenta que indústria sucroenergética trouxe uma série de outras vantagens para o município, como valorização imobiliária e principalmente a estagnação do êxodo urbano, pois, sem oportunidades de emprego muitos moradores migravam para cidades maiores. Com o fim desse processo já houve até uma leve retomada do crescimento populacional.
 
Em contrapartida, Silva diz que aumentou também a demanda por vários serviços públicos como: habitação, saúde, segurança e educação. Na área da moradia, por exemplo, para diminuir o déficit de casas, o município está tendo que construir 173 novas unidades, e na educação, em parceria com a própria usina, implanta um projeto para melhorar a qualidade de ensino.
 
Promovendo a transformação
Em Chapadão do Sul, município de 17.293 habitantes (IBGE), que fica na região Leste do Estado, a 280 quilômetros de Campo Grande, e que tem sua economia também fundamentada na agricultura e pecuária, a implantação da primeira usina sucroenergética, a IACO, que começou a moagem em julho deste ano, já está trazendo uma série de reflexos positivos para a cidade.
 
A Iaco é um empreendimento dos grupos Grendene, Irmãos Schmidt e do empresário André Esteves. Nesta primeira safra, a previsão é que a unidade moa 1,1 milhão de toneladas de cana e produza 80 milhões de litros de etanol, mas em 2013 a unidade deve atingir sua capacidade total, chegando à produção de 155 milhões de litros de etanol, 3 milhões de sacas de açúcar e uma cogeração excedente de energia de 48MWh. O investimento é de aproximadamente R$ 400 milhões.
 
Segundo o prefeito de Chapadão do Sul, Jocelito Krug, dos cerca de 850 empregos gerados diretamente pela usina, 550 são ocupados por moradores do município e de cidades próximas, o que representa uma oportunidade de trabalho para mais de 3% da população local. Ele calcula que a IACO já responda por cerca de 30% da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) da cidade. “A instalação de um empreendimento desse porte é muito importante para a cidade porque gera empregos e diversifica nossa base econômica. Depois da usina, até o nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) subiu”, comenta.
 
Krug diz que como a prefeitura participou ativamente do processo de implantação da usina, e que, por isso, teve tempo também para se preparar para as necessidades que surgiram com essa instalação. “Já tivemos que construir dois novos postos de saúde, estamos executando as obras de um novo hospital e de novas escolas, e também tivemos que comprar mais veículos para atender várias secretarias. Mas já esperávamos por tudo isso e estávamos preparados, sabendo que seria muito positivo para Chapadão do Sul”, conclui.
 
O superintendente da IACO, Edson Luiz Cunha da Rocha, ressalta que o diálogo da empresa com o Poder Público, no caso a prefeitura, foi muito importante para que a cidade não sofresse um impacto tão grande com a chegada da usina.
 
“O projeto começou a ser implantado em 2007, com o cultivo da cana e no ano passado começamos a construção da indústria. Em todo esse tempo vínhamos conversando com a prefeitura. Sabíamos que a cidade cresceria, e  muito, mas foi mais rápido do que esperávamos. Só para atender a usina, como exemplo desse processo, surgiram até empresas de mecânica especializada em caminhões canavieiros e muitas outras já vieram ou estão vindo para cá. Isso sem falar no desenvolvimento indireto, com a abertura de novos supermercados, concessionárias de carros e farmácias. Para cada emprego direto que a usina gerou, estimamos que tenham surgindo três indiretos”, revela.
 
O polo
Apesar do desenvolvimento em Angélica e em Chapadão do Sul ser grande, em nenhum outro pequeno ou médio município do Estado o setor é tão importante quanto em Rio Brilhante, cidade de 25.560 habitantes (IBGE), localizada na região da Grande Dourados, distante 160 quilômetros de Campo Grande, que tem três usinas sucroenergéticas instaladas, e que se transformou no primeiro polo da atividade em Mato Grosso do Sul.
 
No município estão duas usinas da multinacional francesa Louis Dreyfus Commodities (LDC): a Passa Tempo, que começou a operar em 1991 e que em 2007 foi adquirida pelo grupo, e a Rio Brilhante, projeto greenfield inaugurado no ano passado, além da Eldorado, que iniciou o processamento em 2006 e em 2008 foi adquirida por R$ 700 milhões pela ETH Bioenergia, braço sucroenergético da Odebrecht.
 
Juntas, as três usinas têm entre áreas próprias e de terceiros, 60 mil hectares cultivados com cana em Rio Brilhante, e responderam por um terço da moagem e produção de etanol do Estado e quase a metade de todo o açúcar fabricado em Mato Grosso do Sul na safra 2008/2009. Neste ciclo processaram 6,2 milhões de toneladas de matéria-prima para fabricarem 298,8 mil toneladas de açúcar e 332,3 milhões de litros de etanol.
 
As usinas do cluster sucroenergético de Rio Brilhante empregam diretamente aproximadamente 3.500 pessoas, além de oferecerem oportunidade de trabalho a mais 70% desse total, indiretamente, o que equivale à cerca de 2.500 pessoas, conforme estimativa do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Açúcar e Álcool de Rio Brilhante e Região.
 
Segundo a prefeitura, atualmente 70% da arrecadação de impostos do município vêm das usinas sucroenergéticas. Desde a entrada em operação da terceira unidade no município em 2008, o valor obtido com o Imposto Sobre Serviços (ISS) cresceu 225%, passando de uma média de R$ 200 mil para R$ 650 mil por mês.
 
Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Aleson Alípio Cândido, hoje, 90% dos trabalhadores que prestam serviços e os que são funcionários das usinas são moradores de Rio Brilhante, sendo de outras cidades, geralmente apenas os membros da direção das unidades e os que desempenham alguma função que exige alto grau de especialização.
 
Para assegurar essa geração de empregos na cidade, ele diz que a prefeitura fez parcerias com entidades como o SENAR e o SEBRAE para capacitar a mão-de-obra e ao mesmo tempo estimular o surgimento de empresas que pudessem prestar serviços para as usinas e também atender as demandas que surgissem no município com esse processo de industrialização.
 
Cândido diz que o setor tem um papel fundamental no desenvolvimento do município, mas que junto com o crescimento, a prefeitura também vem se preocupando com os impactos sociais da atividade sucroenergética. Por exemplo, para evitar a expansão desenfreada do plantio de cana, existe uma lei municipal que estipula qual o limite máximo da cultura em razão da área agricultável do município, que é de aproximadamente 398 mil hectares. Em 2008, foi de 24% da área, neste ano, de 29% e em 2012 chegará ao limite, que é de 40%. “Queremos com isso, evitar que se deixe de plantar outras culturas, como o milho e soja, pela cana”, comenta.
 
Assim como nos outros municípios, junto com o desenvolvimento também aumentaram as exigências da população para o Poder Público, que desde a expansão do setor, teve que melhorar os equipamentos dos Postos de Saúde, construir novas unidades, aumentar o efetivo e o número de viaturas da Polícia Militar, construir mais 34 salas de aula, dobrar a quantidade de vagas em creches, além iniciar um programa habitacional para construir mais de 2,5 mil casas.
 
Outro fator registrado pelo secretário foi a grande valorização imobiliária. “Veio muita gente de fora para trabalhar. A valorização foi tanta, que alguns funcionários das usinas que não achavam casas para alugar ou comprar na cidade, tiveram que fazer a locação em municípios próximos. Até em Dourados, que fica a 65 quilômetros daqui foram alugados imóveis. O aluguel de uma casa em Rio Brilhante que valia R$ 200 passou de uma hora para outra para R$ 600”, conclui.
 
Oportunidades para as micro e pequenas
O Sebrae de Mato Grosso do Sul fez em 2008 um estudo dos impactos positivos da instalação das usinas sucroenergéticas para os municípios de pequeno e médio porte no Estado, que apontou que somando as oportunidades de negócios que envolvem direta e indiretamente os empreendimentos são criadas demandas nestas cidades para até 255 especialidades profissionais diferentes.
 
“A instalação de uma usina gera um impacto financeiro muito positivo para o município. Por isso, estamos desenvolvendo um trabalho junto com as prefeituras e a Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul) para mostrar a comunidade às oportunidades que se desenham com esse processo”, explica o diretor técnico do Sebrae, Tito Manuel Sabarando Bola Estanqueiro.
 
Estanqueiro comentou que em média cada usina contrata de 1.200 a 2.000 colaboradores diretos e indiretos e que a grande maioria acaba sendo de mão-de-obra local. “Geralmente apenas o corpo diretivo e alguns profissionais altamente especializados vem de fora. Essas pessoas têm uma remuneração maior e vão demandar serviços que muitas vezes não existiam no município. Um superintendente de uma usina, por exemplo, quando vem para a cidade traz junto à família. Sua esposa vai querer fazer uma academia, seus filhos um curso de inglês, e assim por diante. Isso tudo é oportunidade para o empresário local. Se ele não aproveitar o espaço acaba sendo ocupado pelo seu concorrente”, sentencia.
 
O estudo do Sebrae classificou as oportunidades de negócios que surgem com a chegada das usinas nos municípios como diretas e indiretas. Nas diretas, estão inseridas as negociações feitas com as própria indústrias, sendo relacionadas, por exemplo, a venda de insumos (produtos químicos, material de escritório, adubos, inseticidas, lubrificantes e ferramentas, entre outros), de bens de capital (máquinas, tratores, caminhões, colheitadeiras e equipamentos de laboratório, etc), além da prestação de serviços (oficina mecânica especializada, tornearia, segurança patrimonial e auto-elétrica, entre outros).
 
Já as indiretas surgem com o aumento da população e melhoria da massa salarial nos municípios. Essas oportunidades secundárias foram indicadas no levantamento do Sebrae em nove segmentos: fitness e bem-estar (academias, clínicas de beleza e estética, farmácia de manipulação, farmácia e salão de beleza, etc); comércio de alimentos e bebidas (açougue, conveniência, frutas, minimercado, padaria, pizzaria e supermercado, etc), prestação de serviços (assistência técnica em informática, buffet para festas, casa lotérica, cobrança e conserto de ar-condicionado, etc), lazer e entretenimento (bar, boate, casa de show, choperia, clube, floricultura, lanchonete, videolocadora, restaurante e sorveteria, etc), manutenção de veículos (borracharia, autopeças e oficinas, etc), serviços médicos (clínica médica, hospital particular, fisioterapia, medicina do trabalho e enfermagem, etc), turismo e negócios (agência de turismo, hotel e hotel fazenda, etc), educação profissional (curso de informática, curso de línguas, cursos administrativos e escola profissionalizante, etc) e negócios e finanças (caixa eletrônico, centro comercial, locadora de veículos, loja de calçados e lojas de eletrodomésticos, etc).
 
Para saber mais sobre o estudo do Sebrae clique aqui!
 
Emprega mais e remunera bem
O diretor regional do Senai em Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck, diz, com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) que é entregue todos os anos pelas empresas ao Ministério do Trabalho e Emprego, que o setor sucroenergético é o que mais gera empregos na área industrial em Mato Grosso do Sul.
 
Verruck comenta que no setor industrial das usinas são gerados 12.958 postos de trabalho e outros 10.498 na área agrícola, totalizando 23.456 no complexo industrial, estando à frente nesse aspecto, de setores como o dos frigoríficos, da construção civil e do têxtil. Com a entrada em operação de novas unidades, ele projeta que o número de empregos do segmento deve subir para 56 mil ainda este ano.
 
Além de gerar mais empregos na área industrial, o segmento também é o que oferece a segunda melhor remuneração, conforme o levantamento do diretor do Senai. O salário médio do colaborador no complexo industrial sucroenergético (somando as áreas agrícola e industrial) no Estado é de R$ 1.025,89 e a massa salarial (soma de todas as remunerações pagas) chega a R$ 24 milhões por mês.
 
Importância econômica
O setor representa 5,6% do PIB de Mato Grosso do Sul, o que corresponde a R$ 1,34 bilhões, segundo dados do presidente da Biosul, Roberto Hollanda Filho.
 
Ele calculou o PIB com base nos números de produção e comercialização de açúcar e etanol do Estado no ciclo passado (2008/2009), que foi de 640,5 mil toneladas de açúcar, o que representou em venda, R$ 365 milhões, e 1 bilhão de litros de etanol, que resultou na comercialização de R$ 975,8 milhões.
 
Conforme Hollanda, essa participação tende a aumentar significativamente nesta safra, quando o número de usinas passará de 14 para 21. “Até 2015, mantidas as condições atuais poderemos ter instaladas no Estado 30 usinas, que vão moer juntas 68 milhões de toneladas de cana e produzir 3,3 milhões de toneladas de açúcar, 3,7 bilhões de litros de etanol, cogerar 1.494 MW de energia e empregar 112 mil trabalhadores. Ou seja, o setor vai dobrar de tamanho em relação ao que é hoje”, prevê.
 
O presidente da Biosul diz que o Estado tem todas as condições para concretizar essa projeção e cita como fatores de estímulo à expansão do setor as boas condições edafo-climáticas locais (solo, clima, etc); o bom ambiente institucional, com apoio do governo do Estado e principalmente dos municípios; além  da oferta e disponibilidade de terras e da proximidade dos centros consumidores.