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Entrevista - JEAN-IVES CARFANTAN, Economista e especialista. em comércio internacional

"Sustentabilidade é um caminho sem volta"

16 setembro 2009 - 00h00Por Folha do Fazendeiro

A criação de gado no Pantanal tanto pode ser um diferencial positivo para os pecuaristas da região como um problema, se não forem observadas as regras de sustentabilidade. A avaliação é do consultor da Céleres, economista e especialista em comércio internacional, Jean-Yves Carfantan. Representante da Fesia (Federação das Escolas de Engenharia em Agricultura da França) nas relações da União Européia com o Mercosul, Carfantan concedeu esta entrevista à Folha do Fazendeiro.

FOLHA DO FAZENDEIRO – Depois da Wal-Mart e de outras grandes redes varejistas, a fabricante Nike também instituiu protocolos visando garantir que a matéria prima que utiliza não esteja causando desmatamento da Amazônia. O procedimento de vender a imagem da sustentabilidade veio mesmo para ficar?

JEAN-IVES CARFANTAN – Sem dúvida, a implantação do conceito de sustentabilidade é um caminho sem volta. Além disso deixou de ser prerrogativa apenas de organizações não governamentais e vem se estendendo ao setor empresarial. Recentemente foi a vez do varejo global declara sua adesão à onda verde. Redes varejistas globais como o próprio Wal Mart, Carrefour, Marks and Spencer, entre outras, incorporaram em suas agendas, metas e compromissos relacionados à redução das emissões de gases de efeito estufa, diminuição da pegada de carbono, redução do consumo de água e energia elétrica, não apenas em suas lojas e plataformas operacionais, mais em toda a sua cadeia de suprimentos. Isso significa que os grupos varejistas vão exigir que seus fornecedores também passem a adotar práticas mais sustentáveis em seus processos produtivos.

 

P – Qual é a ordem de importância desse item nos cuidados que o setor pecuário precisa ter para garantir novos mercados?

R – No caso da pecuária, seja de corte ou leite, obedecer as regras da sustentabilidade passa a ser de capital importância para que os produtores de carne ou leite garantam sua permanência no mercado. Sem isso dificilmente eles conseguirão manter-se no mercado e, obviamente, não poderão nem pensar em abrir novos espaços para comercializar suas produções.

 

P – Na sua avaliação, essa é uma exigência que parte diretamente dos consumidores ou é influenciada indiretamente pelas autoridades fitosanitárias?

R – O mundo mudou e com ele a sociedade. A exigência por produtos ambientalmente corretos e socialmente responsáveis vêm dos consumidores que cada vez mais adotam novos hábitos de consumo pautados por esses valores. Há algum tempo o menor preço deixou de ser o único critério nas decisões de compra dos consumidores. Agora, são os critérios de sustentabilidade que determinam o consumo ou não de determinados produtos, entre os quais a carne, leite e derivados. Às autoridades fitossanitárias cabe somente o papel de estabelecer e fiscalizar o cumprimento de regras que garantam a qualidade dos produtos em termos de segurança alimentar. Elas fazem isso com muito rigor pois sabem que, em caso de qualquer incidente lhes será atribuída uma parcela de culpa. Ninguém quer esse ônus.

 

P – Como o senhor insere o criador pantaneiro na aceleração da exigência de boas práticas de produção por parte dos mercados?

R – Até onde eu conheço da prática da pecuária na região no Pantanal, onde o rebanho é essencialmente criado a pasto, posso afirmar que esse aspecto tanto pode ser um diferencial positivo quanto um problema. Será positivo se o criador pantaneiro souber tirar proveito dessa condição favorável que as propriedades locais têm de poder oferecer capim em quantidade suficiente para seus rebanhos sem grandes necessidades de suplementação, pois isso confere uma imagem de “produto natural” para a carne pantaneira. Mas pode ser um problema se a questão da sustentabilidade não estiver à frente dos processos produtivos locais, uma vez que, se a pecuária na região for associada à degradação ambiental, ao prejuízo para a biodiversidade ou a algum tipo de ameaça aos recursos hídricos locais, isso poderá ser extremamente danoso para a imagem do boi pantaneiro, a exemplo do que ocorreu na Amazônia onde a pecuária foi associada ao desmatamento da floresta.

 

P – Qual a forma de o criador pantaneiro agregar valor ao seu produto? Seria por meio da criação de um selo específico ou da certificação de órgãos credenciados para tal?

R – Mesmo sem conhecer a fundo a realidade da pecuária no Pantanal eu diria que a certificação é condição sine qua non para que a carne produzida na região seja aceita no mercado global. O selo decorrente dessa certificação funcionaria como uma estratégia de marketing, sem dúvida importante para o produto perante os consumidores, ávidos por informações sobre os produtos que adquirem.

 

P – No âmbito do respeito ao meio ambiente, instituições como o Greenpeace e a WWF já conquistaram credibilidade frente à opinião pública. A consolidação de um produto pantaneiro dentro das normas de sustentabilidade passaria pelo trabalho conjunto dos criadores com essas instituições? Qual a melhor forma de unir as duas partes, normalmente situadas em lados opostos?

R – O que levou a sociedade civil organizada – Ong’s – e o setor privado à decisão de abandonar o confronto foi a descoberta de que trabalhar como colaboradores significava, para cada um, uma grande oportunidade de melhor defender os seus interesses particulares, tomando como diretriz a questão da sustentabilidade. Por um lado as empresas do setor produtivo, a exemplo do que acontece com as empresas do setor varejista, precisam oferecer muito mais que a simples eficiência econômica para manter sua legitimidade. Por outro lado, as Ong’s precisam responder à mudança de valores da opinião pública que não aceita mais a crítica pura e simples, sem o respaldo de propostas ou ações concretas Isso vale também para a produção de carne no Pantanal.

 

P – Quais as perspectivas de abertura de mercados a partir de uma carne pantaneira certificada?

R – O mercado existe e é promissor, cabe ao produtor de carne do Pantanal se adequar às novas exigências desse mercado e de quem o movimenta: os consumidores.