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INSUMOS

Preços dos adubos no Brasil sobem mais de 50% em dois meses

A perspectiva é de que os preços permaneçam sustentados, próximas ao patamar atual, pelo menos no médio prazo, segundo analistas de mercado

02 maio 2022 - 12h28Por Canal Rural

Os preços dos adubos importados acumulam alta de até 53% no Brasil desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, há dois meses. O impacto varia a depender do nutriente, mas o ponto comum é o fato de que nenhum dos principais ativos aplicados nas lavouras passou ileso da volatilidade do mercado global de fertilizantes.

A perspectiva é de que as cotações permaneçam sustentadas, próximas ao patamar atual, pelo menos no médio prazo, segundo analistas de mercado. De 24 de fevereiro, início da invasão russa ao território ucraniano, à última quinta-feira (21) o preço do cloreto de potássio (KCl) importado aumentou 53%, de acordo com levantamento divulgado pela consultoria StoneX.

Na data, o KCl atingiu US$ 1.208,30 por tonelada CFR (custo e frete) em porto no Brasil. O valor praticado da ureia, referência para nitrogenados, avançou 46% na mesma base comparativa, para US$ 856,70 por tonelada CFR porto na quinta-feira (21).

O fosfato monoâmonico (MAP) subiu 39% na mesma base comparativa, para US$ 1.253,30 por tonelada CFR porto. Os dados são os mais recentes do mercado e atualizados semanalmente. “O impacto nos preços é inevitável porque a Rússia representa 16% do mercado global de fertilizantes, o que significa tirar uma fatia relevante de oferta”, avalia o diretor de Fertilizantes da StoneX, Marcelo Mello.

O reflexo nos preços deve-se à elevada participação da Rússia no mercado global de adubos e das consequentes incertezas dos players em relação à capacidade do país de manter suas exportações em meio à guerra.

O país é o segundo maior exportador de nitrogenados do mundo e terceiro maior exportador global de fosfatados e potássicos, com participação de 16% no mercado global de adubos. Para o Brasil, a Rússia fornece aproximadamente 22% do volume internalizado anualmente, principal origem das importações.

Analista de Insumos do Rabobank Brasil, Bruno Fonseca aponta que o dólar contribuiu para amenizar a alta das cotações nas últimas semanas. De acordo com ele, observa-se desaceleração da alta, após os preços terem disparado na eclosão do conflito e baterem recordes sucessivos.

“As cotações estão subindo menos porque tendem a atingir certo patamar que derruba a demanda. Há um limite na demanda para aumento dos preços”, disse. Entretanto, em meio à ausência de sinais de cessar-fogo entre os países do Leste Europeu, a perspectiva é de que as cotações internacionais dos adubos continuem no médio prazo pelo menos sustentadas, próximas ao patamar atual.

“Há uma boa parcela de oferta ‘fora’ do mercado, o que vai sustentar o preço até meados de junho e julho ou enquanto as sanções estiverem vigentes. Para o potássio, ainda há fôlego para subir mais em virtude da ausência também de Belarus do mercado”, avalia Fonseca. Essa estimativa de médio prazo coincide com o período de aquisição de fertilizantes para a safra de grãos de verão do Brasil, o que corrobora a perspectiva de encarecimento do custo destes insumos para a temporada 2022/23.

Outro fator que pode interferir nos preços no curto e médio prazo é a volatilidade do mercado. Mello, da StoneX, observa que as incertezas continuam presentes e o mercado ainda busca entender os efeitos da guerra no setor. “O mercado continua estressado, sem saber o que realmente está ocorrendo e tentando digerir os impactos do conflito sobre as exportações russas de fertilizantes. É muito mais que uma questão de preço. É uma questão de conseguir trazer o produto”, pontua Mello.

De acordo com o analista, apesar de os fertilizantes não estarem inclusos no rol de sanções europeias e norte-americanas sobre a Rússia, a efetivação dos embargos comprometeu a realização dos pagamentos em dólar, inviabilizou a ação de alguns bancos russos e prejudicou a logística física dos insumos tanto pelo Mar Negro como, em menor proporção, pelo Mar Báltico. “Além disso, os custos de frete marítimo para cargas russas subiram expressivamente. Nenhum armador e companhia marítima quer ir para lá”, observa o analista.

Neste cenário nebuloso, produtores capitalizados tentam até mesmo antecipar o pagamento de compras a fim de garantir o insumo, enquanto misturadoras limitam as vendas por lotes determinados à medida que garantem o volume com fornecedores externos, relata Fonseca, do Rabobank. “Por enquanto, o mercado doméstico enfrentou forte aumento de preços, mas a incerteza se haverá ou não produto ainda é muito grande, com maior risco de falta”, ressalta.