Os preços do boi gordo têm batido sucessivos recordes nominais nos últimos dias no país, em um movimento mais intenso do que o esperado para esta época do ano, quando costuma haver valorização devido ao período seco que reduz a oferta de pastagem para o gado.
Na quinta-feira (8), o Indicador do Boi Datagro em São Paulo bateu em R$ 376,13 a arroba. Uma semana antes estava em R$ 367,02. O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq confirma o cenário: fechou em R$ 376,30 por arroba, alta de 3,29% no mês.
A gradual retomada dos abates de bovinos para atender a cota da China de 2027 e uma menor oferta decorrente do ciclo de baixa na oferta da pecuária no Brasil explicam parte da alta. Mas os preços ganharam impulso extra com a alta dos custos de produção e com a cota adicional de importação anunciada pelo governo Trump, que vem turbinando as exportações ao país.
“Desde o início do ano tínhamos a expectativa de que haveria, sim, essa alta de preços a partir de agosto e setembro, por causa do ciclo pecuário. O que não prevíamos era o custo de produção tão alto e a cota adicional dos Estados Unidos, que é um fator a mais para a alta dos preços”, disse o presidente-executivo da Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo), Paulo Mustefaga.
Em 1 de setembro, entrou em vigor uma cota adicional de 300 mil toneladas de carne bovina magra, sem aplicação de tarifas, anunciada pelo governo americano em agosto para países que já são fornecedores, como o Brasil. Nesse cenário, os exportadores brasileiros já ampliaram os embarques de carne bovina aos EUA.
Em setembro, as vendas somaram 48,3 mil toneladas, volume 389% maior do que no mesmo mês de 2025. Foi o maior embarque mensal em ao menos três anos — o mais próximo havia sido registrado em abril de 2025, 47,8 mil toneladas. “Já é um reflexo dessa cota e deve continuar assim até o começo do ano que vem”, afirmou Felipe Fabbri, analista de mercado da Scot Consultoria.
O retorno da demanda chinesa, após quase três meses sem negócios em virtude do preenchimento da cota de 1,1 milhão de toneladas sem tarifa adicional de 55% estabelecida por Pequim, ocorre como previsto por entidades e empresas.
No fim de agosto, o diretor financeiro da Minerva Foods, Edison Ticle, já havia mencionado a expectativa de que os preços do boi se recuperassem com a volta da demanda chinesa. “Os abates ‘China” estão começando a ser retomados”, disse o líder da área de pecuária da consultoria Datagro, João Otávio Figueiredo. Segundo Lygia Pimentel, CEO da consultoria Agrifatto, já há informações sobre cargueiros com carne bovina para desembarque na China em janeiro.
Em julho, frigoríficos do Brasil interromperam abates e deram férias coletivas por causa do preenchimento da cota chinesa. Agora, começam a preparar novamente a carne a ser embarcada à China neste trimestre, para chegar ao país no início de 2027, para contabilização na cota do ano que vem. Em setembro, o Brasil exportou só 12,9 mil toneladas ao mercado chinês, 93,2% menos do que em setembro de 2025.
A fase atual do ciclo pecuário brasileiro também sustenta o cenário de alta, de acordo com Fabbri, da Scot Consultoria. O analista disse que um estímulo à estação de monta [por meio de acasalamento ou inseminação artificial], com mais fêmeas sendo retidas. Isso porque o preço do bezerro está valorizado, refletindo abates dos últimos três anos que levam agora a uma recomposição do rebanho.
Segundo o Cepea/Esalq, o bezerro está em R$ 3,3 mil no Estado de São Paulo — alta de 17% em relação a um ano atrás. O cenário indica menor presença das fêmeas nos abates dos últimos meses do ano. O confinamento é um recurso importante para abastecer o mercado no segundo semestre, principalmente com a piora sazonal das pastagens, mas o volume de gado sob engorda intensiva em agosto e setembro deste ano caiu em relação a 2025, segundo Fabbri.
Afora a demanda maior para abate, o câmbio também pode influenciar na precificação do boi gordo neste trimestre, segundo Figueiredo, da Datagro. A queda do dólar ante o real nos últimos dias — após o primeiro turno das eleições, em que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — reduz o valor em reais da carne bovina exportada.




