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Plantio direto reduz o efeito estufa

02 dezembro 2009 - 00h00Por Estadão, por Fernanda Yoneya.

Introduzida no País em 1972 para auxiliar os produtores rurais no combate à erosão, a técnica do plantio direto na palha consolidou-se entre os agricultores brasileiros e, hoje, a pesquisa comprova que os benefícios do não revolvimento do solo, da rotação de culturas e da manutenção constante da palhada como cobertura de solo - os três princípios básicos da técnica - já superam a conservação do solo. Quase 40 anos depois da introdução da tecnologia no Brasil, o papel do plantio direto mudou. Se no início da década de 70 discutiam-se seus benefícios na conservação do solo, agora, às vésperas da 15ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-15), este mês, em Copenhague, na Dinamarca, discute-se o papel do plantio direto no cenário de mudanças climáticas globais como importante mecanismo para sequestrar carbono no solo.

"Em média, no País, o sequestro de carbono no solo por meio do plantio direto é de 0,5 tonelada/hectare/ano", diz o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq/USP, um dos autores do trabalho Agricultura tropical e aquecimento global: impactos e opções de mitigação. Considerando que, no Brasil, a área com plantio direto é de 26 milhões de hectares, conforme a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, seriam 13 milhões de toneladas de carbono estocadas no solo/ano via plantio direto.

O pesquisador Odo Primavesi, da Embrapa Pecuária Sudeste e um dos relatores do relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da ONU, diz que, junto com a integração lavoura-pecuária, a integração lavoura-pecuária-floresta, os sistemas agroflorestais e silvipastoris e os reflorestamentos, o plantio direto tem essencial contribuição no sequestro de carbono.

CARBONO ACUMULADO

"Quando se revolve o solo no plantio convencional há a decomposição da matéria orgânica. Se essa matéria orgânica não for reposta, há redução de seu teor no solo", diz Primavesi. "Ao reduzir o teor de matéria orgânica de 3% para 1,5%, na conversão de pastagem para lavoura convencional, 80 toneladas por hectare de CO2 são emitidas." O plantio direto, ao contrário, que tem como prioridade manter matéria orgânica no solo, acumula carbono.

O potencial do plantio direto no sequestro de carbono pode e deve ser usado em debates internacionais, como a COP-15, defende Cerri, da Esalq. "Acredito que EUA e Argentina, que têm, respectivamente, a primeira e a terceira maior área com plantio direto - o Brasil está em segundo lugar - seriam grandes parceiros e apoiadores da ideia." O pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária e integrante do comitê gestor da Plataforma de Mudanças Climáticas da Embrapa, também incentiva o plantio direto como fixador de carbono no solo. "Se a técnica se expandir em mais 10 milhões de hectares, a meta será atingida. Considerando o avanço da tecnologia nos últimos 15 anos, é possível."

ALTERNATIVA

Para o professor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP), Carlos Clemente Cerri, que liderou a revisão Emissões de gases do efeito estufa do Brasil: importância da agricultura e pastagem, o plantio direto é alternativa para ajudar o País a atingir as metas de redução de emissões. "São metas claras e possíveis." Segundo a Embrapa, para o setor agropecuário foi estabelecida uma redução de emissão de gases do efeito estufa de 4,9% a 6,1%, até 2020 e o governo já anunciou que o plantio direto será apresentando na conferência, ao lado de ações de recuperação de pastos, integração lavoura-pecuária e fixação de nitrogênio.

O professor do Cena cita outro número a favor do plantio direto. "Em comparação ao plantio convencional, o plantio direto absorve, por hectare/ano, 1,9 tonelada de CO2 equivalente a mais. A denominação "CO2 equivalente" aplica-se quando os três gases do efeito estufa - CO2, metano e óxido nitroso - são convertidos em uma única unidade. "O plantio direto emite gases-estufa, mas absorve mais carbono."

Cerri, da Esalq, concluiu, com base em estudos, que o potencial de estocagem de carbono no solo varia conforme solo e clima. "Há duas regiões contrastantes, a Sul e a Centro-Oeste. No Sul, onde a temperatura é mais baixa, a decomposição da matéria orgânica é mais lenta e, consequentemente, a "saída" de CO2 do solo. No Centro-Oeste, mais quente e chuvoso, a decomposição é mais rápida, mas a "saída" de CO2 também é mais rápida. No Centro-Oeste a dinâmica de entrada e saída de carbono é acelerada, o que reduz o potencial de sequestro."