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Peixe modificado pode chegar a supermercados

05 julho 2010 - 00h00Por Folha de S. Paulo.

A agência americana que regulamenta alimentos e remédios (FDA) estuda seriamente a aprovação do primeiro animal transgênico para consumo humano: um salmão capaz de crescer duas vezes mais rápido que o tempo normal.

A empresa que está desenvolvendo o salmão transgênico tenta há dez anos conseguir sua aprovação.

Agora, ela parece ter apresentado todos (ou quase todos) os dados de que a FDA precisa para analisar se os salmões são seguros para o consumo, nutricionalmente equivalentes aos outros salmões e se não representam perigo ao meio ambiente. Uma reunião pública para discutir o tema pode ocorrer nos próximos meses.

É provável que alguns grupos ambientais e de consumidores façam objeções ao salmão. Mesmo no interior do FDA vem se discutindo se o salmão deveria ser rotulado (os produtos agrícolas transgênicos não são rotulados como tais).

A aprovação do salmão ajudaria a abrir caminho para que empresas e cientistas desenvolvessem outros animais geneticamente modificados, como, por exemplo, gado bovino resistente à doença da vaca louca ou porcos que pudessem fornecer bacon mais saudável. O próximo na sequência de aprovação, depois do salmão, provavelmente seria o "porco ambiental", criado em uma universidade canadense, cujo esterco é menos poluente, por conter menos fósforo.

O salmão foi desenvolvido pela empresa AquaBounty Technologies e seria criado em empreendimentos de piscicultura. Ele contém um gene do hormônio de crescimento de um salmão-rei e também uma chave genética do peixe marítimo da espécie Zoarces americanus, parente do salmão.

Normalmente, os salmões não produzem hormônio de crescimento no frio. Mas o Zoarces americanus produz o hormônio o ano inteiro. O resultado é um salmão que pode atingir o tamanho necessário para ser levado ao mercado em 16 a 18 meses, em vez de três anos. A empresa disse que o salmão transgênico não ficará maior que os salmões convencionais.

"O que se consegue é alcançar o peso-alvo em menos tempo", disse o executivo-chefe da AquaBounty, Ronald L. Stotish, agregando que o salmão de crescimento acelerado ajudará a suprir as necessidades alimentícias do mundo, consumindo menos recursos.

Sediada em Massachusetts e listada na Bolsa de Londres, a AquaBounty disse no mês passado que a FDA já aprovou 5 dos 7 conjuntos de dados exigidos para demonstrar que o peixe é seguro ao consumo e ao meio ambiente. A companhia disse que já comprovou, por exemplo, que o gene inserido não se modifica ao longo de múltiplas gerações e que a modificação genética não prejudica os animais.

"Esperamos receber a aprovação final nos próximos meses", disse Stotish. Depois, serão necessários dois ou três anos para o salmão modificado chegar aos supermercados.
A FDA confirmou que estuda o produto, mas, em função de normas de confidencialidade, negou-se a dar outras declarações.

Críticos disseram que o processo não permite uma avaliação plena dos possíveis impactos ambientais de animais geneticamente modificados.

"Não há oportunidade para alguém de fora ter acesso aos dados [da FDA] ou criticá-los", disse Margaret Mellon, diretora do programa de alimentos e meio ambiente da Union of Concerned Scientists (grupo independente de cientistas que buscam soluções para assuntos de interesse público).

Mellon disse que quando grupos de defesa do consumidor foram convidados para discutir a política de biotecnologia com altos funcionários da FDA, em maio, ela avisou aos representantes da agência que a aprovação do salmão transgênico geraria "uma tempestade de reações negativas".

Não está inteiramente claro como os consumidores vão reagir. Algumas sondagens indicam que os americanos se preocupam mais com animais transgênicos que com as plantas geneticamente modificadas já usadas em diversos alimentos. Mas outras pesquisas sugerem que muitos consumidores aceitariam os animais, desde que oferecessem benefícios ambientais ou nutricionais.

Alguns executivos disseram que representantes da FDA discutiram internamente a possibilidade de o salmão transgênico ser rotulado como tal, para garantir aos consumidores a escolha de evitar comprá-lo.

A expectativa é que, antes de sua decisão final, a FDA promova uma reunião pública de um comitê assessor. Mas Gregory Jaffe, diretor do Centro de Ciência no Interesse Público, disse que reuniões desse tipo com frequência não dão tempo suficiente ao público para analisar os dados.