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Para produzir mais, é preciso investimento

04 julho 2011 - 11h55Por Gazeta do Povo

A agricultura familiar não é a mesma. Quem insistiu em ficar no campo nas últimas duas décadas, mesmo quando as coisas iam mal, hoje tem uma demanda bem maior por alimentos. Conta também com mais apoio público, expresso no Programa de Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Estruturou a produção do jeito que conseguiu e melhorou de vida. No entanto, quando esses produtores discutem formas de fazer o negócio engrenar, se dão conta de que estão numa encruzilhada. Precisam de investimentos maiores, que nem sempre cabem nos limites do crédito agrícola. Se não encontrarem alternativas, podem ter seu crescimento e sustentabilidade afetados.

Essa avaliação determina a relação entre os pequenos produtores e o crédito rural no país. O Plano Agrícola e Pecuário (PAP) da agricultura familiar para 2011/12, confirmado em R$ 16 bilhões, terá R$ 7,7 bilhões (48%) para investimento, argumenta o diretor de Geração de Renda e Agregação de Valor do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Arnoldo de Campos. “E o apoio não se resume a isso. Investimento se acumula, deve ser avaliado enquanto a soma dos recursos aplicados ano a ano.”

A avaliação de organizações como a Federação dos Traba­lhadores na Agricultura Familiar do Sul do Brasil (Fetraf-Sul) é que o potencial do setor vai além dos limites do crédito. “Nossa principal preocupação é garantir que o produtor familiar tenha acesso aos recursos sem maiores problemas burocráticos para ir adiante”, diz o secretário-geral da entidade, Diego Sigmar Kowald.

O foco dos programas públicos são os produtores menos estruturados, afirma Campos. “As questões que envolvem a permanência do produtor na lavoura são bastante complexas. Será que o produtor que se consolidou em sua atividade precisa mesmo é de crédito?”, indaga, apontando para uma sobra de 30% no orçamento de R$ 16 bilhões do ciclo 2010/11.

Para a Fetraf, o problema é que os recursos chegam em doses pequenas para projetos específicos. “A questão é estrutural, envolve no endividamento à burocracia”, diz Kowald.

Enquanto MDA e Fetraf discutem se falta ou sobra crédito, muitos produtores mantêm distância dos financiamentos. Outros adiam planos. Certo de que ainda é possível avançar muito em produtividade, o pecuarista Nelson Di Domenico, que alcança 12 litros ao dia por vaca com um rebanho de 15 animais da raça jérsei em Francisco Beltrão (Sudoeste), persegue sua meta com inseminação artificial das matrizes. Se renovasse o rebanho, poderia dobrar sua marca em dois ou três anos, constata. “Mas não dá para a gente se endividar.” Em sua região, uma vaca leiteira holandesa custa entre R$ 5 e 10 mil. As vacas jérseis de sua propriedade estão cotadas em R$ 3 mil.

Sua capacidade de endividamento foi esgotada na compra de um trator que vale R$ 30 mil, financiado pelo programa Mais Alimentos do go­­verno federal. “Primeiro uma coisa, depois a outra.”

Família entrega leite “barriga mole” de porta em porta e sonha com expansão

A caminho de atingir 1 bilhão de litros de leite ao ano, o Sudoeste do Paraná ainda possui produtores que entregam o alimento de porta em porta. Muita coisa mudou desde o tempo que os leiteiros circulavam nas cidades da região de charrete ou carroça, com o alimento em litros de vidro ou garrafas pet. A produção vem aumentando em 50 mil litros ao ano, mas esses trabalhadores se tornaram raros. Uma contradição que se explica pelo aumento das exigências sanitárias e pela dificuldade que os antigos leiteiros enfrentam para implantar laticínios familiares.

“Investimos cerca de R$ 200 mil para implantar a estrutura de produção que usamos para empacotar os 750 litros de leite que produzimos por dia, com inspeção municipal. Mas, para ampliar a produção e nos adequarmos às exigências da inspeção estadual, teríamos de investir R$ 1 milhão”, calcula Adelmar Crestani, um dos cinco proprietários de laticínios familiares de Francisco Beltrão.

Ele avalia que o apoio que vem de programas como o de Fortalecimento da Agriculura Familiar (Pronaf) tem sido fundamental para manter os trabalhadores no campo, mas tem suas limitações. Falta uma ligação entre o Pronaf e os programas de apoio à produção comercial, considera. “Quando chegamos a um certo ponto, fica difícil continuar crescendo sem investimento maior”, diz o pecuarista, que segue em busca de alternativas.

Normalmente, os pecuaristas entregam tudo o que ordenham a laticínios instalados num raio de até 400 quilômetros de distância. Poucos conseguiram se adaptar às exigências sanitárias e seguir atuando em todos os elos da cadeia, da produção de pastagem e ração para as vacas à destinação final do produto. Um sinal claro de que o agricultor familiar nem sempre consegue se apropriar dos benefícios da expansão da produção e da agroindustrialização.

Com 28 hectares de milho e pasto, os Crestani alimentam 70 vacas – 40 em lactação. Produzem 750 litros de leite ao dia, que são distribuídos de porta em porta no município. Para isso, eles possuem equipamentos para pasteurizar e empacotar a produção. Parte do leite é transformada em iogurte, com o uso dessa mesma estrutura. As 14 creches do município recebem o alimento com sabor artificial e sem conservantes.

Nos supermercados da cidade, as embalagens “barriga mole” com o nome Agroleite Crestani são exceção. Disputam espaço com produtos de indústrias do Paraná (como Batavo), São Paulo (Nestlé), Santa Catarina (Terra Viva, Aurora), Rio Grande do Sul (Piá). Ainda há poucas marcas locais para os derivados do alimento, que é uma especialidade regional.

Por enquanto, o desafio para os Crestani é garantir mercado para o leite e o iogurte de 40 vacas. “Não foi fácil conquistar a confiança de restaurantes, supermercados, panificadoras”, relata Lindanir Francio Crestani, que acompanha o marido na entrega de leite pela cidade, feita com um veículo utilitário. Para passar a um segundo patamar, seria necessário industrializar leite de produtores vizinhos, o que exigiria a formação de uma rede de fornecedores capaz de garantir o atual padrão de qualidade, analisa.

Os filhos do casal – Leonardo e Yana Cris – é que devem definir o futuro da agroindústria. Participam da produção e discutem os planos de investimento. “A qualidade é a nossa prioridade. E depende não só da ordenha, mas também da alimentação e da saúde dos animais”, diz Yana, que cursa o 4.º ano de veterinária numa faculdade particular, paga com a renda da leiteria.