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O agronegócio e o iPad

23 agosto 2012 - 01h45Por Sou Agro

 O desempenho do agro nos últimos anos gerou divisas para o País, barateou a comida e permitiu que o Brasil tivesse caixa para importar produtos em áreas em que ainda teremos que percorrer chão para sermos competitivos. “Costumo dizer que se não fosse o agro, não teríamos como comprar iPad’s”, brincou Marcos Fava Neves, professor da FEA/USP (Ribeirão Preto-SP) e um dos principais especialistas em agro do País, em palestra promovida pela Abag-RP, a jornalistas e estudantes de jornalismo, no final da semana passada – (sexta, 17) – em Franca (SP).


O colchão de recursos gerado pelo agro e que fortaleceu a economia brasileira pode ser visto em números. De 1989 até 2011, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), as exportações do setor cresceram 6,8 vezes, saltando de US$ 13,9 bilhões para US$ 94,9 bi, o equivalente, no ano passado, a 37% do total exportado pelo País. No mesmo período, as exportações totais do Brasil saltaram de US$ 34,3 bi para US$ 256 bi.
Em 2011, o superávit do País chegou a US$ 29,8 bi, mas o do agro foi bem mais longe, totalizando US$ 77,4 bi. Além disso, no tocante ao desempenho produtivo, o agro, mais especificamente a agropecuária se destacou em 2011 como o setor que mais cresceu no Brasil (3,9%), ante 1,6% da indústria e 2,7% do segmento de serviços.

“A verdade é que sem os números positivos da agropecuária brasileira, o saldo da balança comercial ficaria negativo”, frisou Fava Neves, acrescentando que já em novembro o recorde de exportações do agro deverá ser batido, com o setor alcançando a cifra de US$ 100 bi. “A seca nos Estados Unidos e o câmbio dão impulso às vendas dos produtos agrícolas brasileiros no exterior.”

Para quem é contra a exportação de commodities, Fava Neves pontuou que é importante sim o Brasil agregar valor à pauta exportadora, mas ressalvou que quem critica desconhece a tecnologia existente no agro brasileiro. ”Há um forte conteúdo tecnológico presente na maioria das cadeias produtivas do setor.”
Agro viabiliza importações do País

O balanço positivo de pagamentos do País, proporcionado pelos bons resultados do comércio exterior – puxados pelo agro –, também contribuiu para que as importações brasileiras avançassem. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), as importações subiram de US$ 91,4 bi em 2006 para US$ 226,2 bi em 2011. “Por exemplo, o ingresso e a instalação de fábricas de carros importados no Brasil devem muito ao desempenho do agro”, disse Fava Neves.

O dinamismo do agro como carro-chefe das exportações encontra ressonância em declarações públicas do próprio governo Dilma. Um exemplo é o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, que no lançamento do Plano Nacional da Cultura Exportadora, nessa quarta-feira (22), em Brasília (DF), ressaltou que “a indústria brasileira deve se adaptar para crescer de forma semelhante aos setores agrícola e mineral”.

Mais renda para a população

Mas não é só do ponto de vista exportador que o agro contribuiu para a economia do País. Entre 1995 e 2008, o crescimento do setor promoveu a transferência de R$ 854 bi para a população em geral, aponta a premiada tese de doutorado – datada de 2010 – “Transferências interna e externa de renda do agronegócio brasileiro”, de autoria de Adriana Ferreira Silva, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.
Segundo a pesquisadora, o objetivo da tese foi calcular quanto o agro transferiu para os demais setores da economia nacional e ao exterior ao longo do período escolhido, que é caracterizado por controle da inflação, expansão de programas de transferência de renda e crescimento do comércio internacional. Na avaliação de Adriana, as iniciativas de caráter doméstico tiveram o efeito de reduzir a concentração de renda e da pobreza no Brasil e os ganhos de produtividade do agro tiveram importante contribuição nesse processo.

“Os beneficiários do controle da inflação e dos programas de transferência de renda gastam grande parte de sua renda em bens de origem agropecuária, em especial alimentos. Nesse sentido, para que a distribuição da renda fosse efetiva e proporcionasse o aumento do consumo tanto de alimentos quanto de bens de outros setores, era importante que os preços do agro aumentassem menos que a elevação da renda ou tivessem mesmo redução. Para isso, os ganhos de produtividade do agro foram fundamentais”, diz a tese.

Em síntese, de acordo com a pesquisadora, a redução dos preços reais dos produtos agropecuários foi fator primordial na melhoria do poder aquisitivo dos consumidores, em especial, para as famílias de baixa renda.

Futuro

Como não poderia ser diferente, para Fava Neves, a agenda do agro brasileiro passa pela China, especialmente pelo fato de que o fenômeno da migração populacional do campo para as cidades se acentuará no país asiático nos próximos anos. No entanto, alertou que o Brasil tem, no mínimo, três grandes desafios a superar: resolver as questões ligadas à infraestrutura logística, o emaranhado tributário e o inchaço do Estado.