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Glifosato está perdendo a guerra contra as pragas nos EUA

09 junho 2010 - 00h00

Por 15 anos, Eddie Anderson, fazendeiro em Dyersburg Tennessee, tem sido um adepto do plantio direto, evitando assim a erosão do solo e a contaminação de rio por produtos químicos. Mas não vai ser assim este ano. Em uma manhã de maio ele colocou tratores para arar o solo no qual em breve seria plantado soja.

Assim como o uso indiscriminado de antibióticos cria superbacterias, resistente aos medicamentos, o uso excessivo do herbicida Roundup – que tem como principal componente ativo o glifosato – levou a criação de superervas daninhas.

Para combatê-las Anderson, e fazendeiros através do Leste, Meio Oeste e Sul dos Estados Unidos tem sido forçados a usarem em seus campos ainda mais herbicidas, arrancar as ervas daninhas com as mãos e retornar com trabalhos mais intensivos, antes abandonados, como aração mais frequente.

“Nós estamos de volta há 20 anos”, diz Anderson, que ia arar um terço de seus 3.000 acres de soja, o que ele já não fazia há anos. “Estamos tentando achar alguma coisa que funcione, que acabe com as ervas daninhas”.                         

Especialistas em agricultura dizem que isso pode levar a preços mais elevados, baixa produtividade, elevar o custo de produção e ainda a poluição do solo e das águas.

“Essa é a maior ameaça a produção agrícola que nós já presenciamos”, diz Andrew Wargo III, presidente da Arkansas Association of Conservation (Associação de Conservação do Arkansas). 

A primeira vez que o problema apareceu foi em 2000, no estado do Delaware, em uma plantação de soja. Desde então, o problema tem se espalhado, já são dez espécies resistentes em, no mínimo, 22 estados, infestando milhões de hectares, predominantemente em plantações de soja, algodão e milho.

As novas superpragas podem mudar o entusiasmo dos agricultores com relação às variedades geneticamente modificadas. Se o Roundup não mata mais as ervas daninhas, os fazendeiros terão pouca motivação para gastar mais em sementes especiais.

O Roundup foi criado pela Monsanto, as vendas decolaram na década de 90, pois mata uma larga variedade de plantas indesejáveis, é fácil e seguro de se trabalhar, mata as ervas daninhas rapidamente e tem pouco impacto sobre o meio ambiente. Posteriormente, a companhia criou a semente modificada Roundup Ready, que tolera uma grande quantidade do herbicida sem causar danos à produção. Hoje, essas sementes modificadas representam 90% da soja plantada dos Estados Unidos, 70% do milho e do algodão.

Mas os fazendeiros espalharam tanto Roundup que as ervas daninhas evoluíram e sobreviveram a ele. “O que nós estamos falando aqui é de evolução darwiniana acelerada”, diz Mike Owen, cientista da Universidade do Iowa.         

A Monsanto, que chegou a dizer que a resistência ao herbicida não seria um problema, agora está mais cautelosa ao contra-argumentar sobre os impactos da questão. “Isso é um problema sério, mas gerenciável”, diz Rick Cole, que trata da questão de ervas daninhas resistentes para a companhia nos Estados Unidos.

Não deve ser o fim - Contudo, a Monsanto, e outras companhias do setor de biotecnologia vêm trabalhando em outros tipos de sementes resistentes aos herbicidas. A Bayer já está vendendo sementes de soja e algodão tolerante ao glufosinato. A mais nova geração de milho da Monsanto é resistente aos dois, glufosinato e glifosato; e ainda trabalha em outro resistente ao dicamba, outro pesticida. A Syngenta está desenvolvendo soja resistente ao Callisto® - herbicida seletivo de ação sistêmica, pós-emergente.  A Dow Chemical trabalha em um milho tolerante ao 2,4-D, um componente do agente laranja, um desfolhante usado na Guerra do Vietnã.

Entre toda essa polemica há um ponto de convergência, fazendeiros e cientistas são unanimes em dizer que o glifosato é um tipo de descoberta que só acontece uma vez em um século, e sua eficácia tem de ser preservada.
    

Matéria de William Neuman repórter do Dyersburg, Tenn., e Andrew Pollack de Los Angeles, publicada no The New York Times. Traduzida e adaptada por Jefferson da Luz.