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Fundo volta para commodities e domina contratos de soja

04 novembro 2009 - 00h00Por DCI - Priscila Machado

Os fundos de investimento retornaram ao mercado de commodities e o percentual de contratos já é o mesmo do período anterior à crise econômica mundial. De acordo com André Pessoa, diretor da Agroconsult, a presença de agentes especuladores já é realidade em todos os mercados e na soja atinge atualmente cerca de 40% dos contratos.

Atentos aos fundamentos, os fundos estão, na sua maioria, na posição comprada, mas a perspectiva para as commodities agrícolas em 2010, exceto o açúcar, é de queda e a oscilação impulsionada por esses agentes pode se virar contra produtores no futuro. "Os fundos exageram e antecipam o que os fundamentos do mercado indicam", diz Pessoa.

De forma geral, os produtos agrícolas apresentam uma demanda crescente e uma oferta que não acompanha o mesmo ritmo. Foi essa percepção aliada à retomada da economia despontando em importantes mercados, que fez com que os especuladores se voltassem novamente para o mercado agrícola. No entanto, a entrada da safra 2009/2010 pode mudar essa perspectiva. O preço da soja vem se sustentando baseado apenas no atraso da colheita do grão nos Estados Unidos, enquanto milho, café e laranja ainda não apresentam sinais de uma retomada de rentabilidade favorável ao produtor. O cenário deve se agravar ainda mais para os produtores brasileiros com a desvalorização do dólar.

O cenário para a safra 2009/2010 foi traçado durante a reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), a última do ano. Na ocasião, especialistas apresentaram avaliações negativas para o próximo ciclo para uma plateia composta por lideranças do setor. "A exceção do setor sucroalcooleiro e, não obstante, o custo de produção menor, indicam um horizonte para o próximo ano sombrio", diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e atual coordenador do Cosag.

Concomitantemente ao movimento dos especuladores, que avança no mercado de commodities, os agricultores utilizam cada vez menos mecanismos de proteção, o que faz com que os riscos na atividade agrícola aumentem. A volatilidade amplia o custo de margem, ou seja, está cada vez mais caro se proteger. O encarecimento do custo dos mecanismos para travar os preços antecipadamente fez com que as tradings, que já estavam descapitalizadas pela crise, se retirassem ainda mais desse mercado, reduzindo o financiamento aos produtores.

"O produtor de soja está sem conseguir travar preço futuro, está sem crédito e sem operador de hedge, que era papel das tradings", diz Pessoa. O consultor afirma que os sojicultores do Mato Grosso venderam apenas 25% do volume da próxima safra quando em condições normais já teriam comercializado de 50% a 60%.

Pessoa destaca também que a fuga das tradings mudou o modelo de financiamento no mercado de algodão, impossibilitando a venda antecipada da cultura que costumava ser feita até dois anos antes da safra ser colhida.

Desprotegidos das oscilações do mercado, os produtores precisaram que o governo incrementasse os subsídios ao longo deste ano por meio de programas como o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) e o Prêmio Para Escoamento de Produto (PEP).

A medida é vista como inconsistente por analistas que apontam o fortalecimento dos contratos de opção de venda, no qual o produtor compra o direito de vender a um determinado preço, como a melhor garantia de renda aos agricultores. "O risco de rentabilidade baixa no ano que vem poderia ser evitado com as opções", afirma Pessoa. Para o consultor, o Pep e o Pepro têm o mesmo efeito do hedge, mas são feitos após o "leite derramado. "Outra diferença é que o hegde fica na mão do produtor", diz.

Alexandre Mendonça Barros, consultor sócio da MB Agro, é outro entusiasta dos contratos de opção. O especialista acredita que o mecanismo de subsídio que já é feito pelo governo do Estado de São Paulo deve ser estendido a todo o País. "Na opção, paga-se a vista no momento do contrato e já se sabe o quanto está gastando por ela. Na Bolsa, só ficamos sabendo no dia seguinte."

Para apurar a importância do mercado futuro no mercado agrícola, a Fundação Getulio Vargas (FGV) está realizando um trabalho econométrico com o objetivo de testar a relação entre os preços de commodities agrícolas e os fundamentos do mercado real. Até agora os resultados indicam que a especulação nos mercados futuros é o principal fator determinante nas cotações. "Verificamos que não só o preço das commodities, mas as taxas de câmbio são hoje formadas no mercado futuro", diz Roberto Perosa, pesquisador da GVagro, ligada à FGV.