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Comunidade de Furnas dos Dionísios ainda na era 'pré-histórica' da cana

17 outubro 2011 - 11h34Por Correio do Estado

A produção de derivados de cana-de-açúcar da comunidade quilombola de Furnas dos Dionísio, em Jaraguari (MS), ensaia, com dificuldade, a migração do processo individual e artesanal ao coletivo e industrial. Problemas de infraestrutura para produção e transporte dificultam a concretização do projeto, que poderia resultar na fabricação média diária de 250 quilos de açúcar. Por enquanto, os produtos da cana, uma das principais culturas da localidade, continuam resultando de antigos engenhos, movidos, até mesmo, por força animal.

Furnas, situada ao pé da Serra de Maracaju e a 45 quilômetros de Campo Grande, compreende uma região de cerca de 910 hectares, entrecortada por árvores nativas, além das frutíferas, plantadas há dezenas de anos. Há aproximadamente cem famílias, a maioria descendente do patriarca Dionísio Antônio Vieira, oriundo de Minas Gerais.

Entre os descendentes, está Maria Aparecida Martins, 54 anos, bisneta de Dionísio e presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Furnas dos Dionísio, fundada em 2006. Ela, como os demais moradores, projeta o salto da produção de derivados de cana. “Esse é o sonho da gente”, conta.

As instalações da Agroindústria Prove Pantanal, da associação, ficam a maior parte do tempo sem funcionar. Vez e outra, algum morador usa o maquinário para transformar as canas em rapaduras simples (só de cana) e em açúcar mascavo. Maria Batista da Silva, 52, foi a última a fabricar açúcar no local. Isso há pouco mais de duas semanas. A qualidade do produto pôde ser verificada pela equipe de reportagem na residência da outra Maria, a Aparecida.

Com as máquinas da pequena indústria pouco usadas, o grosso da produção canavieira continua vindo das pequenas propriedades. Em quase todas, há antigos engenhos, trituradores ou catitus (máquinas para fazer farinha de mandioca) e áreas de plantio de cana, mandioca, legumes e verduras, além de diversas árvores frutíferas. Os sítios são, assim, unidades agrícolas e agroindustriais – na mesma propriedade em que se planta, fabrica-se farinha, melado, rapadura e açúcar.

Empecilhos
Terra boa ao plantio, conhecimento e disposição para o trabalho têm de sobra em Furnas – desde crianças, os moradores vivem em meio ao sabor e cheiro dos produtos da cana. A produção da fábrica da associação poderia ser, assim, referência de cooperativismo em Mato Grosso do Sul.

No entanto, infraestrutura deficiente separa essa possibilidade das condições reais. Maria Aparecida lista o que falta: um caminhão, um trator com reboque e arado grande e matéria-prima. Como se trata de produção coletiva, a área para o plantio deve ser da associação e, por conseguinte, de todos. “Duas pessoas da comunidade já doaram, cada uma, um hectare pra plantar a cana. Acabando a temporada de chuva, já vamos começar a plantação”, afirma Aparecida.

Um problema quase resolvido. Mas ainda faltam um caminhão para transportar a cana à fábrica e um trator com condições de uso para o trato da terra. “Nós já pedimos o caminhão e um trator novo para a  Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), mas até agora nada”, reclama Aparecida. O pedido foi feito, segundo ela, há dois anos.