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Opinião

Carne orgânica do Pantanal: sustentabilidade, agregação de valores e comprometimento

16 setembro 2009 - 00h00Por Beefpoint

Miguel Cavalcanti

Fui conhecer o Pantanal e a pecuária orgânica desenvolvida lá. Há tempos queria entender com mais detalhes como era o sistema de produção, numa região com muitas peculiaridades. Queria aprender como era a relação pecuarista-ambientalista.

Seria possível criar uma carne com selo diferenciado, preservar o meio-ambiente e ter lucro, tudo isso ao mesmo tempo? Compartilho com você, nas linhas a seguir, minhas impressões sobre pecuária no pantanal, carne orgânica e sustentabilidade.

O tema sustentabilidade já está na agenda da cadeia da carne, por bem ou por mal. As discussões sobre sustentabilidade impactam cada vez mais diretamente todo o setor. O acesso a financiamentos, a mercados será cada vez mais dependente de provarmos que o dever de casa foi feito. E ainda, a possibilidade de valorização (ou desvalorização) do produto carne bovina, dependendo de como ele é avaliado pelo consumidor.

Está cada vez mais claro que a sustentabilidade passa por três pilares básicos: econômico, social e ambiental. Já existe até uma sigla: 3Ps, em inglês, profit (lucro), people (pessoas), planet (planeta). Um projeto hoje, em qualquer atividade econômica, deve se preocupar com esses 3Ps, até mesmo se quiser maximizar o lucro, no médio longo prazo.

No entanto, a visão “antiga” de muitos ambientalistas é de que a preservação é o primeiro passo. Antes de tudo é preciso cuidar do meio ambiente. Já vejo o contrário acontecer. Especialistas em sustentabilidade já falam que o ponto principal é o lucro.

Afirmam que o lucro vai “rebocar” a atenção as pessoas e ao planeta. Por esse motivo, a WWF apóia uma atividade produtiva. A entidade quer que os pecuaristas ganhem mais dinheiro com a carne orgânica do que com a não-certificada. Acreditam que esse sobre-preço que o mercado paga, é a melhor forma de preservar.

Agregando valor

A definição clássica de agregação de valor é conseguir mudar o produto, de forma a aumentar mais a disposição do cliente em pagar, do que o aumento de custos. Ou seja, o benefício precisa ser maior que o custo.A Associação Brasileira de Pecuária Orgânica (ABPO) está buscando agregar valor a carne bovina produzida no Pantanal por meio da certificação orgânica, da promoção dos diferenciais do sistema de produção (cuidado com ambiente e responsabilidade social) e também com a divulgação da região, que tem um excelente potencial turístico.

A carne orgânica do Pantanal, além de todos os diferenciais que a certificação busca agregar, é produzida num local onde você pode passar férias. Como em outros locais do mundo, unir beleza natural é uma forma inteligente de se vender melhor outros produtos.

Unindo certificação de processos, alinhamento com os desejos dos consumidores mais exigentes do mundo e paisagem única, os produtores de carne orgânica querem vender mais do que um alimento. Vendem uma experiência, coisa que as marcas de maior sucesso comercial fazem.

Comprometimento

Em minha visita, Leonardo Barros, presidente da ABPO, deu uma declaração muito interessante e pertinente. Ele disse que a relação entre os pecuaristas da ABPO e os ambientalistas da WWF requer um grande comprometimento. De um lado, os pecuaristas, entre seus pares, são “cobrados”, questionados por desenvolver trabalhos em parceria com entidades e profissionais que normalmente são tachados de “inimigos”, de “eco-chatos”, de “entraves” a produção.

Do outro lado, os ambientalistas são cobrados, por seus pares, por incentivarem e apoiarem a pecuária de corte, que é muito mal vista por muitos nesse meio.Para que essa relação pecuarista-ambientalista aconteça, e continue, é fundamental que exista confiança, comprometimento e alinhamento de objetivos. Achei interessantíssima essa declaração do presidente da ABPO, e do endosso dessa fala pela equipe da WWF.

Para nenhum dos lados “é fácil” seguir esse trabalho. Estão quebrando paradigmas nos dois setores. Acredito firmemente que o sucesso do trabalho de pecuaristas que visam produzir e de ambientalistas que visam preservar passa por esse alinhamento. Só um trabalho conjunto terá sucesso. A linha de trabalho com mais chances de sucesso passa por uma saída de mercado.

É preciso agregar (aumentar) o valor da produção pecuária que respeita o meio-ambiente, que é socialmente responsável. Um exemplo, uma inspiração, não uma receita Buscar exemplos de sucesso, que provam haver saídas, que inspiram outros produtores é extremamente importante.

A produção de carne orgânica no pantanal sul-matogrossense é um exemplo bem sucedido dessa busca por aumentar a sustentabilidade da cadeia, e ao mesmo tempo melhorar sua rentabilidade. Ainda há muito a ser feito, mas estão no rumo certo. Acredito que esse projeto de pecuária sustentável no pantanal do MS seja um exemplo a ser seguido. Não a ser copiado. Que sirva como inspiração para outros produtores, outros ambientalistas, que nas suas regiões, nas suas realidades, vão procurar desenvolver um trabalho de sucesso. Copiar passo-a-passo o que está sendo feito provavelmente não dará certo.

É preciso entender o que é feito em cada etapa. Procurar aprender com os erros e acertos. E a partir daí, aplicar essa experiência, esse conhecimento e sabedoria em outras regiões. O desafio da sustentabilidade é um desafio de toda a cadeia da carne. Estará cada dia mais na agenda do setor.

Atuando de forma pró-ativa, há a oportunidade de sairmos na frente, mostrando que o Brasil pode ser um líder na produção sustentável de carne bovina para o mundo.Que o projeto carne orgânica do pantanal seja uma inspiração a outros projeto.

Fonte: Beef Point Miguel Cavalcanti é engenheiro agrônomo pela Esalq/USP, pecuarista e diretor de marketing da Agripoint