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Artigo – Na quarta-feira, as cinzas da Imperatriz

12 janeiro 2017 - 00h00

ANDRÉ BARTOCCI

Uma ESCOLA de SAMBA tem, entre suas missões, difundir a cultura e preservar a história do Brasil.

ESCOLA remete à didática, à orientação, à informação de um público interno, o seu povo, e também para um turista internacional. Além de envolver em emoções milhares de pessoas, a Escola de Samba passa, através da poesia e da fantasia, as realidades brasileiras.

Antes de definir um enredo, as Escolas realizam, ou elas deveriam realizar, pesquisas históricas para não sair do real, ou não “FALAR BOBEIRA” e levar nota baixa na avenida.

Portanto, apesar da Licença Poética concedida a estas entidades, é imprescindível que sua proposta seja legítima e ancorada em fatos coerentes com a realidade. E que tenham um mínimo de bom senso.

A Imperatriz é uma escola vencedora e muito competitiva. Desde a década de 80, sempre se posicionou entre as melhores, inclusive recebendo vários títulos do carnaval do Rio e o tricampeonato no século XXI.

Tem no seu currículo importantes Sambas como: “O teu cabelo não nega” e o clássico “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

Porém, no enredo criado para o carnaval de 2017, esta importante empresa carioca errou, perdeu a mão, está desinformada e muito desatualizada!

Mesmo se a intenção não fosse atacar o setor produtivo, eles pecaram, por culpa, ao não prever as reais conseqüências de abordar temas complexos sem a devida responsabilidade. Na melhor das hipóteses, foi leviana.

Logicamente, parte desta culpa se deve ao setor agropecuário que se preocupa pouco com sua imagem.

Mas isto não dá o direito de, no maior espetáculo cultural do Brasil, existir alas e fantasias com nomes pejorativos como estes:

    Fazendeiros e Seus Agrotóxicos
    Olhos da Cobiça
    Doenças e Pragas

Ou estrofes, com fraca poesia, mas com um ataque generalizado à produção e ao progresso:

…”belo monstro rouba as terras dos seus filhos

devora as matas e seca os rios

tanta riqueza que a cobiça destruiu.”

Será que o setor de pesquisa desta Imperatriz não se convenceu que os efeitos colaterais de uma produção agrícola pujante e do progresso são mínimos perto do atraso que seria se eles não existissem?

Inclusive, para a população indígena, que nos últimos vinte anos foi a etnia que mais cresceu dentro da população brasileira (de 294 mil para 734 mil pessoas em apenas nove anos, dados do IBGE).

Além disso, apesar de seus criadores afirmarem que o enredo se trata de uma exaltação da paz, estrofes como estas que em áreas de conflito iminente, são um convite para o confronto:

…”jamais se curvar, lutar e aprender…”

… o sonho de integrar uma nação

           o índio luta pela sua terra

da Imperatriz vem o seu grito de guerra.”

Lembrando que, no país, existem zonas quentes com muita insegurança jurídica no Mato Grosso do Sul, na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Pará, no Paraná, em Roraima. Com certeza, em fevereiro todos estarão ligados na telinha enquanto o “Hino de Guerra” é entoado.

Será que os criadores do enredo não percebem que respostas simples para problemas complexos como a Causa Indígena, com séculos de política pública equivocada, só leva à filosofia barata e contribui com a ignorância? E o pior: este tipo de atitude, sem o real comprometimento com a causa, alimenta o preconceito e a intolerância e, definitivamente, os que mais sofrem com esta confusão é o lado mais fraco, no caso os indígenas!

Será que esta digna Senhora Imperatriz (eu disse imperatriz) não observou que o marketing populista do “nós os fracos contra eles os fortes”, do “nós os puros contra eles os monstros (belos!)”, do “nós do bem contra eles do mal” ficou no longínquo e fantástico ano de 2016 junto com uma reluzente Estrela!

E será que por esta falta a Escola de Samba será penalizada? Não sei.

Sei que nós produtores não nos ofendemos tanto com o apelo populista e leviano do enredo, pois sabemos que estamos mais próximos de Heróis do que de Monstros, mesmo que parte das pessoas ainda tenha dúvidas.

O que sei é que a Imperadora criou uma boa oportunidade para o Brasil mostrar que sua vocação é produzir Alimento, Fibra e Energia através de tecnologias tropicais desenvolvidas por brasileiros, respeitando o meio-ambiente e a diversidade étnica da sua população da forma mais Sustentável do Planeta.

Uma boa dose de informação real, para os foliões e para os turistas, além de textos informativos bem embasados para os juízes do Samba, poderão definir na quarta-feira de cinzas o destino da Inconsequente Imperatriz!

E, quem sabe, nós caipiras poderemos receber da população um sonoro NOTA DEEEEEZ!!!

André Bartocci é pecuarista e formado em Direito. Realiza recria e engorda com Integração Lavoura e Pecuária na Fazenda Nossa Senhora das Graças, em Caarapó – MS