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Relegado no verão, milho terá safrinha de recordes

26 NOV 2009 • POR Valor Econômico, por Alda do Amaral Rocha • 00h00

Depois de uma queda de 7% na área de milho na safra de verão 2009/10, os holofotes do mercado se viram para a safrinha. Cultura que a cada ano ganha mais importância para o abastecimento e para a renda do produtor, a safrinha, que será plantada a partir de janeiro em algumas regiões do país, pode ser recorde. Isso, mesmo num cenário em que a área fique estável, na casa dos 4,8 milhões de hectares registrados no período 2008/09.

Se a notícia é boa porque garante o abastecimento das indústrias nacionais, também preocupa os produtores: uma safrinha cheia - da ordem de 18,7 milhões de toneladas -, significa uma safra total perto de 52 milhões de toneladas e a necessidade de escoar cerca de 8 milhões para o exterior, segundo estimativas de analistas e da própria Conab. A tarefa pode ser mais difícil se o câmbio se mantiver valorizado como atualmente.

Por enquanto, a avaliação, entre analistas e governo, é de que a área de safrinha deve se manter, mas Leonardo Sologuren, da Céleres, por exemplo, acredita que pode haver avanço de 3% a 6% sobre a safrinha semeada em 2008/09. "O produtor vai ficar olhando os preços até janeiro para decidir", diz o analista.

Paulo Molinari, da Safras&Mercados, observa que o produtor tem poucas alternativas ao milho safrinha depois que colher a soja plantada na safra de verão, a partir do fim de janeiro. "O preço da soja deve ser ruim no primeiro semestre, por isso o produtor precisa do milho", afirma ele.

Além disso, custos mais baixos de produção e dificuldades na comercialização de trigo - cultura plantada também após a colheita de verão - são outros fatores que devem estimular o plantio da safrinha, acrescenta.

No Paraná, Flávio Turra, da Organização das Cooperativas do Estado (Ocepar), afirma que é cedo para falar em percentuais, mas aponta que a área de safrinha deve se manter enquanto a do trigo recuará. Na safrinha passada, o plantio no Paraná foi de 1,5 milhão de hectares.

O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) está fazendo um levantamento sobre a intenção de plantio na próxima safrinha, mas dados preliminares também indicam manutenção, segundo Seneri Paludo, superintendente do instituto. Na última safrinha no Estado, o plantio alcançou 1,7 milhão de hectares.

Para Paulo Molinari, a "situação é complicada" pois deve haver excedente de milho no mercado e se o câmbio se mantiver valorizado, a exportação fica prejudicada. Sologuren, porém, é mais otimista. Ele acredita que existe potencial para as exportações pois a expectativa é de que 2010 seja um ano de recuperação econômica após a crise, o que significa maior demanda no mercado externo. Afora isso, os estoques mundiais do grão são menores numa safra em que a soja roubou espaço do milho.

Molinari também não mostra otimismo em relação aos preços do milho e lembra que as cotações só não estão mais baixas porque existe um maior interesse por commodities com a desvalorização do dólar. Conforme levantamento da Bloomberg, do início do ano até ontem, o contrato futuro de milho com vencimento em março de 2010 registrou queda de 12,8% para US$ 4,08 por bushel, num mercado bastante volátil.

Ainda que haja perspectiva de demanda, o produtor deve precisar de algum tipo de incentivo para exportar, reconhece o analista da Céleres. Este ano as exportações de milho devem fechar na casa das 7 milhões de toneladas, e boa parte desse resultado foi possível porque mecanismos do governo, como os leilões de PEP (prêmio para escoamento da produção), ajudaram.

O governo já sinaliza que pode repetir a dose. De acordo com José Maria dos Anjos, diretor de abastecimento agropecuário da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, o governo tem priorizado políticas de equalização de preços, para garantir os preços mínimos em regiões como o Mato Grosso, onde há dificuldades de comercialização do milho.

Neste ano, os leilões de contratos de opções de milho para os produtores levaram 5,1 milhões de toneladas do cereal aos estoques do governo. Mas, agora, já começa a haver pressão por parte dos produtores preocupados com a falta de espaço nos armazéns para o recebimento da próxima safra de soja. "O governo deve priorizar políticas de equalização com instrumentos como PEP, porque não há armazéns para comprar [milho]", disse o diretor. No PEP, o governo paga um subsídio para o comprador do produto escoá-lo e não tem que carregar estoques.