TECNOLOGIAS

Zoneamento de risco climático e práticas conservacionistas aumentam a resiliência a El Niño

No Cerrado, o El Niño de alta intensidade pode provocar irregularidades no início da estação chuvosa e veranicos prolongados, além de afetar a segunda safra, elevando as possibilidades de queda da produtividade

8 SET 2026 • POR Breno Lobato | Embrapa Cerrados • 11h44

No bioma Cerrado, onde a produtividade das lavouras de grãos está diretamente relacionada ao regime de chuvas, a ocorrência de um El Niño de alta intensidade pode alterar o balanço hídrico e trazer desafios aos produtores rurais. Nesse sentido, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e o manejo do solo e da lavoura, com práticas conservacionistas e de gestão, podem aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e mitigar os efeitos do fenômeno climático.

El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno natural periódico (com intervalos de dois a sete anos) que acopla o oceano e a atmosfera no Pacífico Equatorial, alternando-se entre fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e períodos de neutralidade, que afetam as temperaturas e o regime de chuvas em todo o planeta. As fases de El Niño são identificadas quando a média móvel da temperatura na superfície do mar permanece igual ou superior a +0,5 °C em relação à média histórica por, no mínimo, cinco meses consecutivos, enquanto eventos de La Niña são caracterizados por anomalias iguais ou inferiores a -0,5 °C em relação à média histórica pelo mesmo intervalo de tempo. Nos anos considerados neutros, as médias móveis de temperatura ficam entre esses limites.

Segundo o pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados (DF), os dados oceanográficos e atmosféricos mais recentes mostram que o Oceano Pacífico equatorial atravessa um aquecimento expressivo. O Índice Oceânico Niño (ION), que registra desde 1950 a anomalia da temperatura da superfície do mar na porção central do Pacífico equatorial, uma das áreas de referência para medir a intensidade do fenômeno, atingiu o patamar de +1,4°C em junho de 2026, segundo mês consecutivo acima de +0,5ºC, mantendo a tendência consistente de elevação das temperaturas iniciada no começo deste ano.

“A alteração nos padrões de ventos e na radiação de onda longa (radiação térmica eletromagnética emitida pela superfície da Terra, pelas nuvens e pela atmosfera) consolida a transição para a fase quente do ENOS. Múltiplas projeções individuais sugerem, até mesmo, a possibilidade de anomalias térmicas superiores a +2,5°C no Pacífico tropical, o que configuraria um evento de magnitude histórica”, aponta Macena. O aquecimento oceânico se soma a um contexto global já aquecido: o ano de 2026 registrou o segundo mês de maio mais quente da história, com ondas de calor precoces na Europa e eventos extremos recorrentes em diversos continentes.

No Cerrado, que se estende pelas regiões Central, Norte e Nordeste do País, o ENOS pode provocar três grandes problemas para a agricultura: a irregularidade no início da estação chuvosa, que compromete a janela ideal de semeadura da cultura principal de verão; a ocorrência de veranicos prolongados, em que a estiagem intermitente durante o desenvolvimento vegetativo das plantas e o enchimento de grãos elevam o estresse hídrico nas lavouras; e efeitos na segunda safra ou safrinha, uma vez que atrasos na semeadura da primeira cultura estreitam a janela de semeadura para o milho, o sorgo ou o algodão safrinha.  A segunda cultura é exposta ao risco de seca antes de completar seu ciclo, ao avançar da safra no período outono inverno. “Esses riscos climáticos se traduzem em dados concretos de perda de produtividade e do capital investido pelo produtor”, afirma o pesquisador.

Incertezas incontroláveis podem ser transformadas em riscos gerenciáveis
Macena ressalta que mais importante que seguir os alarmes e tentar prever eventos globais com precisão absoluta é oferecer ferramentas práticas para que produtores e gestores rurais convivam com as condições ambientais reais. “A sustentabilidade e a rentabilidade dependem da capacidade de resposta técnica e planejada. Assim, diante da volatilidade climática global e da confirmação de um fenômeno de grande intensidade, o Zarc pode mitigar incertezas na principal fronteira agrícola do País”, afirma.

Desenvolvido pela Embrapa e instituições parceiras sob a coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Zarc, além de ser uma ferramenta regulatória para acesso ao crédito agrícola e ao seguro rural, atua como indutor de tecnologias no manejo produtivo das culturas agrícolas.

O Zarc integra dados meteorológicos históricos, modelos de balanço hídrico do solo e parâmetros ecofisiológicos de 44 culturas, delimitando os níveis de risco de 20%, 30% e 40% de perdas em cada município brasileiro. “Ao traduzir dados climáticos complexos em orientações operacionais claras sobre datas de semeadura, tipos de solos e cultivares, a ferramenta é um grande aliado do produtor para transformar incertezas incontroláveis em riscos gerenciáveis.

Quando alimentado com os indicativos antecedentes de eventos macroclimáticos como o ENOS, o Zarc, associado à estabilização da estação chuvosa na região, permite intervenções preventivas para mitigar as quebras de rendimento identificadas em pesquisas recentes”, explica o pesquisador da Embrapa Cerrados (ver infográfico).