Brasil recebe "presente" dos EUA no exato momento de "despedida" da China
Analistas relacionam o anúncio de Trump sobre o alívio tarifário nas importações da proteína ao fato de o Brasil estar prestes a preencher sua cota de salvaguarda chinesa
Em um comunicado divulgado durante a noite de quarta-feira (26/8), o presidente Donald Trump forneceu mais detalhes sobre o anúncio feito no último sábado a respeito da flexibilização das tarifas sobre a carne bovina importada.
Na avaliação dos analistas internacionais (e nacionais), a medida de Trump tem como principal favorecido o Brasil, o único grande exportador mundial de carne bovina capaz de fornecer proteína magra — utilizada na produção de hambúrgueres — a preços competitivos e em grandes quantidades.
O objetivo da medida norte-americana é liberar uma cota isenta de tarifas de 300.000 toneladas, com duração de 90 dias, a partir de 1º de setembro. As 300.000 toneladas adicionais serão administradas por ordem de chegada, em três etapas de 30 dias, de 1 de setembro a 30 de novembro.
Só serão permitidas 100.000 toneladas por mês, com uma ressalva importante: a medida tem como alvo aparas de carne magra usadas para moer carne, e não inclui cortes inteiros de músculo.
O objetivo é misturá-la com carne bovina norte-americana (aparas gordurosas), visando a produção de carne moída.
Mera coincidência?
O portal australiano Beef Central (www.beefcentral.com) chama a atenção para os rumores de mercado gerados pela nova medida de importação de carne bovina dos EUA.
Analistas do setor estabeleceram a conexão entre o momento do anúncio de Trump sobre o alívio tarifário e o fato de o Brasil estar prestes a preencher sua cota de salvaguarda para a China.
Segundo ressalta a reportagem da Beef Central, a medida de Trump não modifica quaisquer compromissos relacionados à carne bovina para países que possuam um Acordo de Livre Comércio com os EUA (incluindo Austrália, Nova Zelândia e Argentina), e não se aplica a países com cotas de carne bovina específicas.
“Isso faz do Brasil o grande beneficiário, visto que estava sujeito a uma tarifa de 26,4% desde meados de janeiro/26”, observa a Beef Central, que acrescenta: “Outros países menores, como Paraguai e Japão, também se beneficiarão, mas seus volumes são insignificantes em comparação com o Brasil”.
Produção nos EUA pode cair 4% este ano
O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) previu que a produção de carne bovina no país deve recuar 4% em 2026 em relação aos níveis já baixos de 2025.
Segundo destacaram os agentes do USDA, o consumo de carne bovina no mercado norte-americano está em níveis recordes, por isso “é necessário e apropriado garantir que o fornecimento de cortes da proteína seja suficiente para atender à demanda interna a preços acessíveis e razoáveis”.
“O presidente Trump está tomando medidas temporárias para fortalecer o fornecimento nacional de carne bovina a preços acessíveis para os consumidores americanos enquanto esses desafios de abastecimento persistirem”, defendeu o USDA, em comunicado.
O departamento acrescentou: “Essa medida temporária aumentará a oferta de carne bovina em cerca de 10% em relação às projeções atuais – um montante que proporcionará alívio econômico aos consumidores”.