TECNOLOGIAS

Estudo revela nova espécie de bactéria associada ao "mal do olho" em bovinos

Conhecida no campo como "mal do olho", "doença do olho gordo" ou pinkeye, a ceratoconjuntivite bovina causa inflamação, dor e até cegueira, reduzindo o apetite e afetando o ganho de peso do animal

19 AGO 2026 • POR Luísa Berg Embrapa Gado de Leite | Felipe Rosa Embrapa Pecuária Sul • 14h19
A pesquisadora Emanuelle Gaspar com um animal infectado com ceratoconjuntivite infecciosa bovina - Luiza Berg

Um estudo liderado por pesquisadores da Embrapa em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o Instituto Biológico de São Paulo resultou na descoberta e descrição de uma nova espécie de bactéria, batizada de Moraxella tarda sp. nov. O microrganismo foi isolado a partir da mucosa nasal de bovinos da raça Hereford que apresentavam sinais clínicos iniciais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), enfermidade popularmente conhecida como cerato, “mal do olho” ou pinkeye. A validação da nova espécie seguiu parâmetros taxonômicos internacionais e exigiu o depósito de isolados representativos em coleções microbiológicas de referência no exterior para a confirmação de espécie inédita. Confira aqui a publicação sobre a descoberta.

O trabalho de identificação teve início a partir de coletas de campo realizadas na Embrapa Pecuária Sul (RS). Em seguida, as análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas foram aprofundadas nos laboratórios das unidades Embrapa Gado de Leite (MG) e Embrapa Gado de Corte (MS). O trabalho integrado permitiu detalhar não apenas a estrutura genética do patógeno, mas também identificar suas diferenças em relação a espécies já bem documentadas na medicina veterinária, como a Moraxella bovis e a Moraxella bovoculi.

Amostras do microrganismo foram depositadas nas coleções internacionais BCCM/LMG Bacteria Collection (Bélgica) e Culture Collection of Porto (Portugal) e no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. “Essa conquista reflete uma jornada que começou em 2018 com as coletas em campo. O depósito nessas coleções valida definitivamente a Moraxella tarda no catálogo global de microrganismos. Isso só foi possível graças à cooperação entre as equipes e instituições, que uniram competências para entregar inovação científica ao setor”, pontua a pesquisadora Marta Martins (foto abaixo), autora correspondente da publicação.

Na prática, a caracterização da Moraxella tarda levanta novas hipóteses sobre o papel do gênero Moraxella na ceratoconjuntivite e abre espaço para investigar se a presença dessa espécie estaria relacionada às variações de eficácia observadas em algumas estratégias de controle no campo.

“As vacinas são feitas a partir dos agentes conhecidos. Se existe um agente desconhecido e não incluído na vacina, o imunizante não protege contra aquele agente, e os animais adoecem, mesmo vacinados. Então, essa descoberta é importante para termos vacinas polivalentes que possam, com a seleção de animais mais resistentes e com outras estratégias de manejo, controlar efetivamente a doença”, explica Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa e um dos autores do trabalho.

A ceratoconjuntivite é uma enfermidade conhecida pelos produtores, mas a identificação de uma nova espécie do gênero Moraxella contribui para aprofundar o entendimento sobre os agentes envolvidos na doença e abre novas perspectivas para pesquisas em diagnóstico, epidemiologia e saúde animal.

Entenda a Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina (CIB)

A Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina é uma enfermidade ocular que afeta bovinos, principalmente bezerros, de raças europeias (taurinas). A doença provoca inflamação, dor, lacrimejamento e úlceras na córnea, podendo resultar na perda parcial ou total da visão dos animais. A dor contínua tende a reduzir o apetite e diminuir o ganho de peso, enquanto o manejo constante para o tratamento sobrecarrega a rotina da propriedade rural.