MERCADO PECUÁRIO

Boi gordo: "Quem não vendeu na baixa acertou", afirma Alcides Torres

Diretor-proprietário da Scot Consultoria vê espaço para novas altas da arroba do boi gordo, mas reforça que a decisão de venda deve considerar a margem de lucro

10 AGO 2026 • POR Portal DBO • 08h30

“O pecuarista que não vendeu quando estava em baixa acertou.” A afirmação é do engenheiro agrônomo Alcides Torres Jr., diretor-proprietário da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP), ao analisar o comportamento recente do mercado do boi gordo e as perspectivas para os próximos meses.

Em entrevista ao programa Terraviva DBO na TV da última quarta-feira (5/8), o consultor analisou os fatores que sustentaram a recuperação da arroba após a pressão de baixa registrada na primeira quinzena de julho, comentou os impactos das exportações, avaliou o comportamento dos frigoríficos e do mercado interno e explicou por que ainda vê espaço para novas altas nos preços.

Ao comentar a estratégia adotada pelos pecuaristas durante a queda da arroba, Torres afirmou que quem segurou a boiada acertou, mas fez uma ressalva importante. “Mas a gente tem que pensar menos em preço e mais em margem. Tendo margem, tendo lucro, a recomendação clássica da Scot Consultoria é vender e realizar o lucro.”

Oferta restrita sustentou a recuperação da arroba
Na avaliação de Alcides Torres Jr., a principal responsável pela recuperação da arroba foi a redução na oferta de bovinos terminados. “O que determinou a alta, o encerramento da queda que aconteceu na primeira quinzena de julho, foi a falta de oferta de boiadas. A retenção de boiadas fez com que os compradores tivessem que pagar mais.”

Apesar das incertezas relacionadas ao mercado internacional, o consultor lembra que o segmento de animais habilitados para a China continua operando normalmente, ainda que em ritmo menor.

“Apesar de todas essas ameaças, ainda temos o mercado do boi-China funcionando. Você tem ágio para boi de até 30 meses, quatro dentes. A coisa está rolando. É claro que em menor volume.”

Tarifas e exportações mantêm frigoríficos cautelosos
Embora enxergue fundamentos positivos para o mercado, Torres destaca que os frigoríficos seguem atuando com cautela diante do preenchimento da cota de exportação para a China e da suspensão das exportações de carne bovina brasileira para a União Europeia.

Segundo ele, esse cenário levou as indústrias a reduzirem o ritmo das compras e evitarem a formação de estoques, enquanto os pecuaristas também permanecem retraídos diante da expectativa de menor produção de bovinos neste ciclo.

“A gente tem uma expectativa de menor produção este ano em função da retenção de fêmeas. Então, o mercado, sem querer, adquiriu um equilíbrio. Está tendo negócio, mas negócios e volumes bastante comedidos.”

Mercado interno deve continuar sustentando a carne bovina
Na visão de Alcides Torres Jr., o mercado doméstico deve continuar exercendo papel importante na sustentação dos preços da carne bovina durante o segundo semestre.

O consultor acredita que a valorização da carne ainda não terminou e cita o bom desempenho do consumo interno, favorecido pelo baixo desemprego e pela expectativa de maior circulação de renda nos próximos meses.

Ele acrescenta que a carne bovina continua competitiva frente às demais proteínas. “Se você comparar carne vermelha com carne de frango, valores semelhantes, você vê que o preço da carne bovina está subindo e o preço da carne de frango caiu. Ou seja, está tendo consumo de carne vermelha.”

Segundo Torres, datas comemorativas, como o Dia dos Pais, ajudam a movimentar as vendas, mas o principal fator para o segundo semestre tende a ser o aumento da circulação de recursos na economia.

“Essas festas ajudam na demanda, mas também nada de muito extraordinário. O que vai pesar mesmo é a distribuição de dinheiro para as campanhas políticas.”

Boi gordo ainda tem espaço para novas altas?
Questionado sobre as perspectivas para a arroba, Alcides Torres Jr. afirmou que ainda existe possibilidade de valorização, desde que não ocorram novos fatos negativos capazes de alterar o cenário atual. “Existe espaço para novas altas, se não acontecer nenhuma novidade medonha pela frente.”

Ele lembra que essa expectativa já aparece refletida nas negociações do mercado futuro. “A expectativa é de alta na cotação da arroba do boi gordo. Tanto é que a B3 já está precificando esse cenário.”

Apesar do otimismo, o consultor reforça que o produtor deve priorizar a rentabilidade da atividade.