LUTO

Pecuária brasileira se despede de Chico Ventania, pioneiro da raça nelore

Selecionador e pecuarista de Mato Grosso do Sul, Francisco José de Carvalho Neto ajudou a transformar a genética do Nelore no país após importar animais diretamente da Índia na década de 1960

13 MAR 2026 • POR José Roberto dos Santos | Assessoria de Comunicação da Acrissul • 10h10

A pecuária brasileira amanheceu de luto nesta sexta-feira, com a perda do grande selecionador Francisco José de Carvalho Neto, conhecido por todos como "Chico Ventania".

Associado da Acrissul, Chico Ventania foi homenageado pela entidade com seu nome em um dos pavilhões do Parque de Exposições Laucídio Coelho, na Expogrande de 2018. 

Em 1962, Chico Ventania, então com 21 anos, viajou à Índia e ajudou a trazer mais de 200 cabeças de gado zebuíno, marco crucial para o Nelore moderno. 

Reconhecido como um dos maiores selecionadores de nelore no Brasil, dedicou sua vida ao campo, focado em rusticidade e qualidade racial.

Sua vida de pecuarista teve início no final da década de 1950. Teve grande apoio, no início de sua criação, de seu amigo Luiz Vicente Lunardi. Nessa época, criava gir. Poucos anos depois, começava sua primeira criação de nelore.

Chico Carvalho ou Chico Ventania dispensa apresentação, pois é o criador de Nelore mais conhecido de Mato Grosso do Sul, sendo o responsável pela importação de animais da raça direto da Índia para o Brasil em 1962. “O navio que trouxe as quase 300 cabeças compradas até no meio da rua na Índia foi o Cora. Graças a essa nossa aventura a raça Nelore obteve mais credibilidade no Brasil”, recordou-se.
 
Dono da Fazenda Arroio Sexto, Chico Ventania é um extraordinário conhecedor do bovino da raça Nelore, que se formou na “universidade da observação e da persistência”. Aos 20 anos de idade, ele viajou para a Índia com seu tio, Nenê Costa, em de lá, trouxe para o Brasil e para o sul de Mato Grosso o gado Nelore.
 
Chico foi oito vezes à Índia, sua escola de vida, um lugar pobre e cheio de dificuldades para se acomodar, se alimentar, se locomover. Com seu modo pragmático e com a espantosa clareza de seu papel de selecionador-comprador, adquiriu na cidade de Madras o gado de raça pura Ongole, um gado branco-cinza.
 
O gado foi embarcado em um pequeno navio dinamarquês chamado “Cora” e veio com 296 animais, enfrentando pânico e temporais, em 39 dias de confinamento até o desembarque em Fernando de Noronha, no dia 1º de janeiro de 1963.
 
Chico e sua esposa, Áurea, vieram para Mato Grosso do Sul em 1965, para uma fazenda à beira do Rio Brilhante, a Rancho Alegre, onde trabalharam muito e formaram sua família. Mudaram-se depois para Dourados e, em 1972, em Porto Murtinho, começou o plantel da Fazenda Arroio Sexto.
 
Chico Ventania é um criador cheio de gosto e constância pelo ofício, chegando a ficar horas no mangueiro, passando e repassando lotes de vacas e estudando como fazer os cruzamentos perfeitos. É um dos responsáveis pelo fato de Mato Grosso do Sul ser o Estado de maior pecuária do Brasil e o seu legado é a forte raça Nelore, capaz de abastecer o mundo de carne.

Marca F

A marca “F”, símbolo que identifica a genética criada pela família Carvalho, tornou-se um dos emblemas mais tradicionais da pecuária zebuína brasileira. Registrada oficialmente em 1920, ela foi a 47ª marca de gado bovino registrada no então Ministério da Agricultura, marcando um passo importante para a organização e identificação de animais melhoradores no país.

O registro foi feito por Francisco José de Carvalho, patriarca da família e responsável por uma das primeiras iniciativas estruturadas de seleção genética no zebu brasileiro. Foto: ABCZ Ao longo das décadas, a marca “F” passou a representar muito mais do que um simples sinal de identificação no couro dos animais. Ela simboliza uma tradição de seleção que atravessou gerações da família Carvalho, mantendo o compromisso com o melhoramento genético do Nelore.

Filhos, netos e bisnetos deram continuidade ao trabalho iniciado no início do século XX, acompanhando o desenvolvimento da pecuária nacional e contribuindo para a consolidação do Brasil como uma das maiores potências mundiais na produção de carne bovina.