SISBOV

Rastreabilidade bovina pode virar ativo valorizado antes de 2032

Sistema único nacional promete agregar valor ao rebanho, abrir mercados e premiar quem sair na frente

6 MAR 2026 • POR Cepea | Abrafrigo • 14h40

Com a implantação gradual do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), o produtor passa a lidar com um novo ativo: a informação vinculada ao animal. A expectativa é que, até 2032, toda movimentação esteja integrada a um sistema único nacional.

Para o produtor rural, o ponto central é compreender que o animal rastreado pode ganhar valor antes mesmo da obrigatoriedade total. Durante o período de transição, parte do rebanho estará identificada individualmente e outra parte ainda não. Esse intervalo tende a representar oportunidade de valorização para quem se organizar primeiro.

A partir de 2032, a identificação na primeira movimentação será obrigatória em todo o território nacional. Até lá, o cronograma prevê etapas intermediárias que exigem planejamento. O movimento já mobiliza estados, indústrias e entidades do setor, indicando que a rastreabilidade será permanente e estruturante para a pecuária brasileira. A avaliação é de que, no futuro, o animal rastreado se torne padrão de mercado.

Segundo Aécio Flores, vice-presidente da ABCAR e coordenador do Grupo de Trabalho de Rastreabilidade da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, a diferenciação atual abre espaço para valorização do rebanho identificado. “Acredito que depois de 2032, com a obrigatoriedade, pode gerar uma commodity do animal rastreado”, afirmou, explicando que a antecipação cria um período de maior precificação desse ativo.

Ele complementa que, quando a rastreabilidade estiver consolidada, a lógica de preço pode se inverter. “O decréscimo de preço vai ser para animal que vai estar fora do processo”, disse, ao destacar que frigoríficos e mercados mais exigentes tendem a priorizar animais com histórico comprovado. Isso significa que a informação agregada ao boi passa a influenciar diretamente a remuneração.

Nesse cenário, o produtor que adotar o sistema mais cedo pode colher benefícios antes da massificação. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma obrigação futura e passa a ser instrumento de competitividade, incorporando dados ao produto e fortalecendo a posição da fazenda na cadeia. Uma dúvida recorrente entre pecuaristas é a possível duplicidade entre PNIB e SISBOV. Aécio esclareceu que não haverá sistemas paralelos. “Não existe PNIB e SISBOV em paralelo. A base de dados é a mesma”, afirmou, reforçando que a infraestrutura será integrada dentro do Ministério da Agricultura.

Segundo ele, o PNIB funcionará como base central da rastreabilidade nacional, enquanto o SISBOV continuará operando protocolos específicos de exportação, acessando a mesma camada de dados. “Não tem replicação de dados. O dado do produtor vai ser sempre o mesmo”, pontuou.

O calendário oficial prevê o início das metas intermediárias em 2027. Nessa etapa, passa a ser obrigatória a identificação de fêmeas no manejo sanitário relacionado à brucelose e tuberculose, além de animais inseridos em protocolos específicos. De 2027 a 2030, o setor terá período de adaptação para consolidar a cultura de controle individual. A partir de 2030, inicia-se a exigência de identificação na primeira movimentação, tornando-se obrigatória em 2032.

“O animal ao sair da minha propriedade precisa ser identificado e vinculado à guia de trânsito animal”, explicou Aécio. Ele destacou que o Brasil já possui controle por meio da GTA. “A gente já tem uma rastreabilidade por GTA, só vai melhorar esse controle individualizando o animal”, afirmou.

O objetivo é ampliar a precisão das informações e permitir rastrear o histórico produtivo com mais segurança. Lisandro Inakake, gerente de projetos da IMAFLORA, avaliou que sair na frente pode trazer ganhos estratégicos. “Quem se movimenta primeiro tem vantagens, porque se estrutura antes e comunica antes”, disse. Estados que investirem cedo podem oferecer ambiente mais competitivo ao pecuarista local, ampliando oportunidades comerciais.

Lisandro também destacou que a rastreabilidade contribui para comunicar com mais precisão a realidade da produção nacional. Ele citou estudo acadêmico indicando que a maioria das propriedades está conforme a legislação. No estado do Pará, dados do programa de auditoria da carne apontaram alto índice de conformidade entre propriedades auditadas.

Para Lisandro, esses números demonstram que há mais pontos positivos do que negativos a comunicar ao mercado. A rastreabilidade não termina na porteira. A indústria frigorífica já começa a incorporar informações do animal ao produto, ampliando a transparência ao consumidor. “A tendência é entregar mais informação junto com o produto”, afirmou Aécio.

Segundo ele, a peça de carne poderá trazer dados sobre origem, raça e propriedades envolvidas.