Gastar mais do que o animal pode ganhar é inviabilizar o negócio
Assim deve pensar o pecuarista em relação aos custos da nutrição animal dentro da fazenda, em cada uma das etapas de produção
O desafio de “ganhar dinheiro com pecuária” levou Roberto Bispo, da Fazenda Lagoa, em Frei Paulo (SE), a mudar de atitude e buscar consultores especializados para mudar sua realidade de caixa, na propriedade. Como o maior custo de produção é a dieta dos animais, ganhar implicava em equilibrar esses gastos com o que o rebanho realmente pode gerar de renda. “Sob nova direção”, em um ano Bispo saltou de uma rentabilidade de R$ 20/ha para R$ 860/ha.
O “salto olímpico” foi motivo de reportagem da Revista DBO, feita para a edição de junho/22 por Carolina Rodrigues, e de entrevista no programa DBO em Foco, veiculado em 21 de julho, quando Danilo Oliveira, veterinário e consultor da Rehagro, explicou como tudo aconteceu para a apresentadora Annete Moreira (confira a entrevista em vídeo ao final da matéria).
Basicamente, a equipe mexeu na nutrição. Na parte de volumoso, melhorou o aproveitamento do pasto disponível por meio de gerenciamento mais efetivo (distribuição de piquetes, rodízio, adubação e vedação). Na suplementação, balanceou melhor o produto por categoria animal e ofereceu a cada bovino o que lhe é de direito para se desenvolver bem. “Isso gera animais lucrativos e, não necessariamente, de encher os olhos”, explica Oliveira, referindo-se a bovinos que comiam mais enquanto outros menos.
Na parte de suplementação, por exemplo, a engorda a pasto pediu um redimensionamento dos cochos, oferecendo mais área per capita e reduzindo significativamente o pelotão da “boiada de fundão”. E assim veio a lucratividade esperada por Bispo que, agora, vai poder viver somente da fazenda.
Na ponta do lápis
Outro pecuarista que faz contas é Alexandre Coccapiller Ferreira, criador da raça Brahman, de gado comercial e adepto do cruzamento industrial, com fazendas em Brasilândia (MS). Ele tem uma produção verticalizada, concebendo de forma independente as etapas de cria, recria e engorda.
Os custos com nutrição são variáveis em cada uma delas, em termos de aporte, mas vitais para uma operação no azul. Na engorda em regime intensivo, por exemplo, para uma arroba de R$ 300 ele pode dispender até R$ 220 que garante a competitividade na sua região, muito pressionada por cana-de-açúcar e reflorestamento.
Para tanto, seu planejamento prevê negociar bem a parte concentrada do arraçoamento, não importando se antes ou depois, conforme a oportunidade e conjuntura. “Nesse momento de bons preços do milho, nos últimos dias, pudemos voltar às compras. Contudo, isso pediu uma revisão no balanceamento para evitar perdas, por exemplo, com excessos”, reitera Ferreira.
O bovinocultor ainda recebe um forte apoio no manejo, na medida que a automação faz o restante, oferecendo no cocho, para cada animal, exatamente aquilo que ele precisa receber em termos de nutrientes (qualidade e quantidade). “É o que faz um vagão misturador. Trabalha muito bem para evitar perdas”, reforça.
Como sua pecuária é de ponta a ponta, o setor de cria entrega o bezerro para a recria e, este, para a engorda. “Em cada etapa temos nossas contas particulares; portanto, cada uma entrega sua parte no compto geral do negócio. Não posso simplesmente pegar o gado gordo que entra na indústria e fechar as contas em cima dele, pois o lucro pode maquiar prejuízos em alguma etapa”, justifica.
Por essa ótica, Francys Ferrer, zootecnista e gerente da Base MT da Terra Desenvolvimento Agropecuário, outra empresa especializada em gestão, a exemplo do que aconteceu no processo de Roberto Bispo, na Lagoa, é preciso tomar consciência dos números e olhar para os vários processos da propriedade.
Consciente, o produtor está pronto para tomada de decisões mesmo com o suporte técnico de terceiros de sua confiança. Números de boa produtividade em uma determinada região podem balizar a formulação de metas a serem perseguidas dentro da fazenda. Um exemplo é o que os dados da Terra podem criar de parâmetro.
Ferrer coloca que 0,1 gramas por dia de ganho médio diário (GMD), representa 3 kg no mês; logo, 0,1 @ produzida em 30 dias. Então, “se eu gasto R$ 20 no mês, o custo da minha @ produzida ficará em R$ 200 reais (20/0,1). Quem comercializou a arroba por R$ 320 realizou caixa de R$ 120, por cabeça”, explica.
Essa realização é factível e deve estar prevista em planejamento, com antecipações e respostas aos possíveis gargalos, além de espaço para manobras na composição dos custos de nutrição, mais de 80% dos totais de produção de um boi gordo. “Essa busca se traduz em satisfação ao ver o bom caixa e ao dizer não às pressões provenientes de outras culturas mais rentáveis”, conclui.