Cientistas brasileiros criam curativo de cana que acelera cicatrização

26 de julho de 2012

  Pesquisadores de universidades federais de Pernambuco desenvolveram um curativo feito a partir de mela√ßo de cana-de-a√ß√ļcar que pode reduzir o tempo de cicatriza√ß√£o de feridas em at√© 50%, segundo as pesquisas. Outras vantagens s√£o o fato de o curativo n√£o precisar ser trocado, ser biocompat√≠vel e at√≥xico. “Montamos um laborat√≥rio e uma empresa incubada com o objetivo de colocar o produto no mercado em dois anos”, diz o engenheiro qu√≠mico Francisco de Assis Dutra Melo, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Já no campus de Rio Claro da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), outro grupo de cientistas está começando a desenvolver comercialmente um processo que permita a produção de polímeros feitos de cana para a fabricação de próteses ortopédicas, pinos, placas e stents (alargadores que evitam o entupimento de artérias). O diferencial é que as peças feitas a partir da cana, por serem biocompatíveis, apresentam menos rejeição e não precisam nunca ser retiradas do corpo, evitando novas cirurgias.

No futuro, a tecnologia do curativo tamb√©m pode dar origem a outros produtos, como pr√≥teses e fios cir√ļrgicos. “H√° at√© uma linha de pesquisa que conseguiu obter art√©rias a partir desse material”, diz Dutra. O desenvolvimento dessas aplica√ß√Ķes foi poss√≠vel por uma parceria entre a UFRPE e a √°rea de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em tr√™s anos, 25 teses de mestrado e doutorado foram publicadas pelo grupo de pesquisa a partir da aplica√ß√£o do pol√≠mero da cana √† sa√ļde.
 
Tanto em Rio Claro quanto em Carpina, onde fica a esta√ß√£o experimental de cana da UFRPE, os biopol√≠meros s√£o obtidos a partir da a√ß√£o de micro-organismos sobre o mela√ßo de cana. As rotas, no entanto, s√£o distintos. A pesquisa de Pernambuco utiliza uma bact√©ria identificada e melhorada nos √ļltimos 15 anos, que produz o pol√≠mero a partir do mela√ßo de cana ou do mel por meio da fermenta√ß√£o. J√° a linha da Unesp √© baseada na produ√ß√£o de √°cido l√°tico a partir do mela√ßo ou do soro de leite. O √°cido √©, ent√£o, transformado no polilactato, pol√≠mero substituto do pl√°stico tradicional.

O fato de ser originado em uma fonte renovável faz com que os polímeros, além de mais compatíveis com o corpo humano, também sejam mais ecológicos. Dutra conta que estudos de mercado feitos por pesquisadores australianos que trabalhavam em linhas semelhantes calcularam que os polímeros renováveis podem substituir 30% a 40% dos sintéticos. De forma simplificada, isso significa que mais de um terço dos plásticos produzidos no mundo poderá vir de fontes renováveis.

Esse potencial é comprovado pelo fato de a Braskem, empresa petroquímica que já fabrica um plástico para garrafas PET a partir do etanol de cana, ser a principal parceira do projeto de pesquisa da Unesp de Rio Claro. A companhia investirá R$ 567 mil em bolsas para os pesquisadores envolvidos nos três anos do projeto. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) está aplicando cerca de R$ 400 mil na compra de equipamentos para o laboratório.

Trabalhos semelhantes j√° levaram ind√ļstrias a produzir biopol√≠meros semelhantes em outros pa√≠ses, mas o diferencial dos trabalhos brasileiros √© que a mat√©ria-prima √© muito mais barata, segundo o engenheiro de alimentos Jonas Contiero, coordenador da pesquisa da Unesp. Nos Estados Unidos se fabricam biopl√°sticos a partir do amido de milho e na Europa se usa o a√ß√ļcar de beterraba, enquanto o mela√ßo de cana e o soro de leite s√£o subprodutos dessas ind√ļstrias, e n√£o suas principais fontes de receita.

N√£o h√° previs√£o de quando o grupo de pesquisa pernambucano atingir√° a escala comercial para os pr√≥ximos produtos √† base de cana. J√° a parceria entre Unesp e Braskem levar√° os pr√≥ximos tr√™s anos desenvolvendo as solu√ß√Ķes industriais para a produ√ß√£o do biopol√≠mero. J√° o curativo depende da certifica√ß√£o do laborat√≥rio da UFRPE junto aos √≥rg√£os reguladores.

Fonte: Sou Agro