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Sem interesse de frigoríficos, bolsa para venda de boi patina

30 de julho de 2010

Lançado em abril pela Bolsa Brasileira de Mercadorias, o sistema eletrônico de comercialização de gado bovino está longe de decolar. Em quatro meses de operação, a "bolsa da carne" negociou apenas R$ 508,5 mil com a venda de 465 cabeças de gado. Outros 800 bois foram ofertados, mas não tiveram compradores. Ontem, mais um lote de 40 cabeças não despertou interesse dos frigoríficos.

A Bolsa, controlada pela BM&FBovespa, previa inicialmente um volume de R$ 2,5 bilhões em negócios para 2010. Mas as operações devem ficar bem longe disso. Pecuaristas acusam os frigoríficos de "jogo pesado" para evitar o modelo de depósito antecipado e conciliação de conflitos via arbitragem interna.

"Os frigoríficos estão jogando duro, oferecendo mais pela arroba fora da bolsa porque preferem o modelo tradicional onde o pecuarista não tem garantia nenhuma de receber", afirma o presidente da Federação de Mato Grosso (Famato), o pecuarista Rui Prado. Os produtores temem a reedição de problemas gerados pela quebra ou recuperação judicial de frigoríficos, como Independência, Margen, Arantes ou Frialto.

Pelas regras, as indústrias têm que depositar 90% do valor do lote dois dias antes de retirar o gado dos currais. E depositar os outros 10% em até 10 dias úteis na conta de liquidação da Bolsa. Quem descumprir o contrato, paga multa de 10%, de acordo com a decisão do juiz arbitral.

Em sua defesa, as indústrias reclamam do custo das operações e afirmam que os criadores não ofertaram gado suficiente na bolsa para abastecer o mercado. "Depende do produtor, e não de nós. Na bolsa, ainda não há oferta suficiente. Aonde tem boi, o frigorífico vai atrás", diz o presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), Péricles Salazar. "Se tivesse escala, teria participação".

Em Goiás, a federação dos produtores lançou o programa "Boi na Bolsa" para tentar atrair ao sistema eletrônico os pecuaristas ligados a confinamentos de bois. "No inicio de agosto, começam a entrar os bois de confinamento. Goiás abate de 2,5 milhões e 3 milhões de cabeças confinadas por ano. Boa parte disso vai para a Bolsa", afirma o presidente da comissão de pecuária da Faeg, José Manoel Caixeta.

Segundo ele, há 1,8 mil pecuaristas do sistema "Pesebem" da federação, donos de 300 mil cabeças, mais aptos a entrar no negócio. "Inovaram uma vez com o Pesebem e vão fazer de novo. Eu mesmo vou ofertar 150 cabeças em agosto", afirma

Diante do impasse, a Bolsa tenta estabelecer um acordo no setor. "Ninguém dos frigoríficos é contra, mas eles vão esperar o pecuarista dar o primeiro passo", avalia o diretor de Novos Produtos da Bolsa, Edílson Alcântara. "Esperava-se um envolvimento maior dos pecuaristas porque é a segurança é um forte benefício. Mas ainda resistem a mudar". O produtor, diz ele, ainda prefere vender a arroba R$ 80 em 30 dias fora da Bolsa do que receber R$ 78 à vista no leilão eletrônico. E rebate o argumento do custo esgrimido pela indústria: "Ela paga R$ 500 a cada R$ 100 mil em negócios. É muito barato pelo que se oferece", diz Alcântara. O setor tem faturamento de R$ 50 bilhões anuais e abate 40 milhões de cabeças por ano, segundo ele, mas "não tem nada escrito" sobre responsabilidade, documentação, formalização e ainda usa entrega em caminhão alugado. "Temos um sistema de comercialização inacreditável", aponta.

A Bolsa avalia buscar novas vantagens para atrair a indústria aos leilões. A instituição negocia com o Banco do Brasil a criação de uma linha de crédito agroindustrial para financiar exclusivamente a compra de gado à vista pelo sistema da Bolsa. "Esse dinheiro sairia da conta do comprador direto para a conta de liquidação", diz Edílson Alcântara. A Bolsa e o BB negociam limites de crédito e juros. "Vai depender da análise de cada empresa, mas seria algo entre 1% a 1,7% ao mês".

O diretor da Bolsa afirma que poderiam ser usados recebíveis (duplicatas, notas promissórias) de clientes de frigoríficos, como grandes varejistas, para reforçar os limites de crédito. "Para médios e pequenos frigoríficos, seria um bom capital de giro", avalia Alcântara.

Para completar a oferta de benefícios, a Bolsa também avalia entrar em leilões de reposição de rebanhos, hoje feitos via internet, TV ou telefone. O modelo é a Bolsa de Rosário, na Argentina. "Continua tudo igual, mas faz a liquidação na Bolsa. E poderíamos expandir para suínos, peixes, frangos", diz Alcântara.
 


Fonte: Valor Econômico, por Mauro Zanatta.
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