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Margem cai e produtor já renegocia dívidas

29 de julho de 2010

Atingidos por um cenário de estreitamento das margens, baixa capacidade de endividamento e reduzido fluxo de caixa, produtores de grãos já começaram a renegociar em bancos públicos e privados algumas dívidas de custeio da safra 2009/10, além de débitos de investimento e passivos repactuados em anos anteriores.

O governo foi alertado pelas instituições sobre as dificuldades financeiras e avalia dar fôlego ao segmento por meio de uma "moratória" nessas dívidas. O Ministério da Agricultura finaliza estudos técnicos para convencer o Ministério da Fazenda a adotar um prazo de carência nos débitos rurais, apurou o Valor. Os bancos resistem por temer impactos em seus balanços, e a equipe econômica do governo rejeita absorver mais custos fiscais em um ano eleitoral. Em maio de 2008, o governo renegociou um pacote de R$ 75 bilhões em dívidas de 2,8 milhões de contratos.

Mesmo com a oposição de parte do governo, o fato é que as margens encolheram na safra 2009/10. Em alguns casos, empataram ou ficaram negativas. Câmbio desfavorável, preços em queda, estoques de alimentos em alta e previsão de superoferta com nova safra recorde pressionam os resultados. Na avaliação de uma instituição financeira, é preciso socorrer produtores de milho e trigo do Paraná e do Centro-Oeste, além dos arrozeiros do Rio Grande do Sul.

Um estudo interno de um agente, corroborado por especialistas do setor, mostra um forte aperto nas margens dos produtores na safra 2009/10. O cenário é mais negativo para milho e soja, que respondem por quase 90% da safra total de grãos do país. A situação fica mais clara quando se compara custos diretos de produção com preços os projetados em setembro de 2009, na época do plantio da última safra, e os preços médios recebidos em junho de 2010.

No Paraná, por exemplo, a soja tinha uma previsão de margem de 91%, mas levou um tombo, recuando para apenas 40%, segundo a avaliação da instituição. Em Mato Grosso, a margem da soja caiu de 59% para 11%. No caso do milho, a diferença recuou de 48% para 4% no Paraná. Em Mato Grosso, foi muito pior: passou da previsão de 27% para um prejuízo de 40%.

Carro-chefe da produção nacional, a soja tinha, na época do plantio da última safra, projeção de margens superiores a 60% nas principais regiões produtoras. Mas os preços caíram 30% na comercialização. No norte do Paraná, o preço médio da saca despencou de R$ 44,60 para R$ 31,40. As cotações em Chicago recuaram e o câmbio teve valorização de 19% nesse intervalo. E, mesmo com a China comprando forte, o mercado passou da demanda para oferta. A safra abundante nos Estados Unidos, Brasil e Argentina recuperou estoques. E há nova previsão de boas colheitas ao redor do globo.

Mesmo com projeções melhores para a safra 2010/2011, prevê-se dificuldades para honrar dívidas com tradings, fornecedores, bancos. Os produtores lembram que, em Mato Grosso, a rentabilidade acumulada desde o ciclo 2004/2005 está negativa em R$ 471 por hectare. "Temos avisado o governo de que as margens são negativas em várias regiões produtoras importantes", diz o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Glauber Silveira.

Fundamental para o equilíbrio dos preços da proteína animal, o milho tem um cenário financeiro ainda mais grave. A redução da área de plantio na última safra, que poderia significar preços mais altos, projetava margens folgadas. Mas os estoques subiram muito em razão da safra recorde puxada pelo clima favorável e alta produtividade das lavouras.

O Brasil teria que exportar mais de 8,5 milhões de toneladas para ajudar o cenário, mas os grandes exportadores (EUA e Argentina) voltaram a ocupar espaços no mercado internacional. Os preços caíram abaixo do mínimo, o governo entrou no mercado, mas não conseguiu segurar as cotações porque a safrinha de inverno entrou antes do previsto no mercado e em grande volume. As margens estão negativas em quase todas as regiões de produção. E, mesmo onde a situação é melhor, deve haver problemas para saldar dívidas acumuladas.

Na próxima safra, que começa a ser plantada em setembro, a situação deve ser um pouco melhor. Mas insuficiente em algumas regiões para garantir boas margens. Os custos de produção caíram porque houve redução dos preços de defensivos e sementes, mas a rentabilidade deve ficar apertada.

"A margem operacional é boa, mas fica negativa se calcular o pagamento das dívidas anteriores", analisa o economista Felipe Prince, sócio da consultoria Agro Security, que presta serviço a vários bancos e tradings do setor.


Fonte: Valor Econômico, por Mauro Zanatta.
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