Uma antiga reivindicação dos médicos veterinários foi ouvida pelo governo federal, a possibilidade deles – e também zootecnistas e engenheiros agrônomos – de serem agentes certificadores do Sisbov (Sistema de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos).
O que na prática confere a esses profissionais prerrogativas que antes eram exclusiva de empresas especializadas: poder inserir dados dentro do Sistema e certificar os animais. O objetivo principal dessas mudanças é, segundo o secretário de Defesa Agropecuária do Mapa (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento), Inácio Kroetz, dar maior segurança ao sistema de rastreabilidade e simplificar as regras.
Alguns defendem a medida, outros olham como um potencial perigo para o trabalho de rastreabilidade que tem sido desenvolvido no Brasil, o qual sofreu muitas mudanças nestes mais de dez anos de existência. No dia 19 de janeiro encerrou a consulta pública para o Mapa ouvir sugestões sobre o novo sistema, mas até o dia 18 de janeiro, conforme o Ministério, só haviam 40 sugestões.
O próximo passo é analisar as propostas enviadas e estabelecer diretrizes e procedimentos. A data para que os profissionais possam requerer o privilégio ainda não é certa, mas, ao que parece ainda vai demorar um pouco. “Ora, se o produtor tem, dentro da fazenda, uma pessoa que sabe todas as informações do rebanho e tem capacidade técnica para certificar os animais, por que pagar uma empresa para fazer o trabalho?”, questiona o médico veterinário Osmar Bastos, lembrando que há a possibilidade dos veterinários trabalharem como pessoa física.
Ele disse que esteve várias vezes em Brasília – quando era presidente do CRMV-MS (Conselho Regional de Medicina Veterinária) – requerendo do governo federal, senadores e deputados apoio para que as regras do Sisbov fossem alteradas. “Finalmente parece que fomos ouvidos”. “Isso é uma avanço na pecuária, porque vai agilizar e baratear o processo de rastreabilidade, já que o produtor não vai precisar mais pagar uma empresa só para fazer certificação”, argumenta Bastos. “É claro que, quem pisar na bola [inserir dados falsos], e não corresponder à confiança vai ser punido.
O Ministério da Agricultura vai em cima dele e o conselho profissional também”, alerta. De acordo com Bastos, recentemente, o Estado viveu situação curiosa, enquanto Minas Gerais estava com cerca de 500 propriedades certificadas no Sisbov, Mato Grosso do Sul, que tem o segundo maior rebanho do País, tinha apenas 60, isso porque havia poucas certificadoras habilitadas.
O problema só foi resolvido depois de uma mobilização dos órgãos de governo para auditar as empresas. Digo não Mesmo como muitos pontos positivos há quem não enxergue a nova norma com bons olhos. Para o médico veterinário Armando Pereira da Silva, esta flexibilização das regras do Sisbov mais “parece um jeitinho brasileiro que no fim acaba com os burros n`água”. “Se for pensar na classe, isso é ótimo, mais espaço de trabalho para todos.
Mas não é só isso que está em jogo, o processo [de certificação da rastreabilidade] é complicado. Quem pode perder é o Brasil. Haverão recém formados doidos para entrarem nisso, oferecendo preço baixo. E, a maioria, como todo aquele que acabou de sair de uma universidade, não tem a firmeza para dizer não a um cliente. Vai ter fazendeirão por aí dizendo: ‘faz desse jeito mesmo filho. Eu estou te ajudando’. Vai ser aí que vamos, mais uma vez, passar vergonha por termos uma rastreabilidade que não pode ser auditada”, argumenta. “Se não houver formas rigorosas de avaliação e a exigência de três anos de experiência na área, sou contra”, enfatiza.
Armando atenta para o fato de que a flexibilização está ocorrendo na etapa que mais deu problema em todos estes anos de rastreabilidade no Brasil, a coleta de dados na fazenda. “Não tem outra forma séria de se fazer a certificação. A forma como está aí é complicada, eu sei. Mas, sinceramente, é assim. Podemos melhorar, mas temos der ter cuidado com o jeito fácil. Esse novo processo me dá medo”, finaliza.
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