Roberto Rodrigues De vez em quando, voltam a circular pela mídia reportagens e comentários criticando o modelo brasileiro de exportações de produtos primários (minérios e commodities agrícolas), com o procedente argumento de que deveríamos ampliar a participação dos serviços e produtos industrializados, que têm valor agregado muito maior.
Ninguém deseja que o Brasil seja eternamente um país agrícola apenas. Qualquer pessoa sonha com a geração de empregos qualificados na indústria e no setor de serviços, com renda melhor para a massa trabalhadora. Mas esses itens não são excludentes. Ao contrário, complementam-se.
O aumento da área plantada e da produção agropecuária demandam, por exemplo, mais máquinas e implementos agrícolas (tratores, arados, grades, subsoladores, sulcadores, retroescavadeiras, aparelhos de irrigação, carretas, cultivadores, plantadeiras, calcareadeiras, roçadeiras, colhedeiras, caminhões, vagões, locomotivas, trilhos), e tudo isso exige uma siderurgia moderna e eficiente; também demandam mais sementes, corretivos, defensivos, fertilizantes, e isso exige tecnologia e uma indústria de insumos competitiva; demandam armazéns e silos, transporte multimodal, portos, sistemas de transbordo, o que exige uma construção civil avançada, escritórios de logística super qualificados e estruturados, bem como a produção e distribuição adequada de energia e uma moderna rede de comunicação e informação.
Tudo isso é indústria. Por outro lado, a crescente produção da matéria-prima agrícola a preços competitivos com o resto do mundo dá margem ao explosivo aumento da indústria de alimentos, que, aliás, foi um dos setores que mais evoluíram em nosso país. E não só de alimentos mas também de roupas e calçados, instrumentalizando a indústria da moda.
E a de agroenergia, barateando os custos dos combustíveis e reduzindo as emissões de CO2. E é claro que no entorno de todo esse imenso aparato industrial que depende diretamente da produção agropecuária -e que compõe o agronegócio- ainda vem a indústria de eletrodomésticos (geladeiras, fogões, micro-ondas, liquidificadores, batedeiras, centrífugas) e a de pratos, copos, toalhas de mesa, talheres e tantos mais. Sem esquecer ainda da poderosa indústria de embalagens...
Portanto, o setor agropecuário está por trás da monumental revolução industrial que o Brasil vem experimentando. Tanto é verdade que a participação do agronegócio no PIB do país vem diminuindo: passou de 28,4%, em 1994, para 26,4% em 2008, embora o valor absoluto tenha crescido de R$ 555,8 milhões para R$ 764,5 milhões no mesmo período, a valores de 2008, segundo os dados do Cepea/USP.
E mais do que isso: o FAO mesmo explica que até 2050 o mundo precisa ampliar em 70% a sua produção de produtos agrícolas para alimentar e vestir a população exponencialmente crescente, em especial nos países em desenvolvimento. E todo mundo sabe que as áreas para este crescimento estão na América do Sul e na África Subsaariana. Mas todo investidor sabe que o Brasil é o país que detêm a melhor condição de atender essa demanda, pela disponibilidade de terra, pela eficiente tecnologia agrícola tropical e por ter um agricultor altamente capacitado.
Seguramente, o aumento das exportações agrícolas ajudará a industrializar ainda mais o nosso país.
Roberto Rodrigues, 67, é coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula).
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