Artigo
11 de dezembro de 2009
Por Rodrigo Cezar Franzon*
No Bioma Cerrado, existem diversas espécies de fruteiras com potencial para exploração econômica. No entanto, do total desse Bioma, cerca de 40 % já foi alterado em função da ocupação agrÃcola e urbana. Esse desmatamento intensivo de grandes áreas de Cerrado trouxe grande ameaça para os recursos genéticos existentes na região.
A ocupação de áreas de ocorrência natural das espécies do Cerrado vem ocasionando fragmentação de populações, ou seja, restam apenas pequenas áreas, denominadas remanescentes, o que pode trazer sérias consequências para a manutenção da variabilidade genética e sobrevivência de várias espécies. A fragmentação florestal é uma ameaça presente em todos os ecossistemas do planeta. A redução no número de indivÃduos, o declÃnio nos tamanhos populacionais médios e a separação de remanescentes florestais por áreas não florestadas afetam processos genéticos fundamentais ocorrentes nas populações nativas, como a deriva genética, o fluxo gênico e a reprodução.
Já foram registradas mais de 12 mil espécies de plantas no Bioma Cerrado, sendo que várias delas possuem utilização regional e muitas se enquadram em mais de um tipo. De maneira geral, as plantas nativas do Cerrado possuem importância para a propriedade rural, onde várias espécies destacam-se pela utilização alimentar, medicinal, madeireira, tintorial, ornamental, corticeira, melÃfera, além de outros usos.
No caso das fruteiras nativas do Cerrado, além de constituir importante fonte de alimentos para os animais, frutos como pequi, cagaita, araticum, baru, jatobá, mangaba, cajuÃ, jenipapo e buriti podem ser consumidos e (ou) comercializados in natura ou sob diferentes formas, como doces, geléias, bolos, pães, farinhas, biscoitos, sorvetes, pudins, sucos, licores e tortas.
Atualmente, em torno de 60 espécies de frutas nativas são conhecidas e utilizadas pela população tradicional que vive no Cerrado. Entretanto, o seu uso restringe-se, ainda, ao usuário local e de forma essencialmente extrativista, já que muitos frutos nativos, embora conhecidos, não são explorados, e devem merecer maior atenção por parte da pesquisa.
Além da utilização para a produção de frutas, algumas espécies nativas também vêm despertando a atenção da indústria farmacêutica, pois as frutas são ricas em vitaminas e em substâncias antioxidantes, entre outras, como óleos essenciais que podem ser extraÃdos das folhas e de outras partes da planta.
Assim, estas espécies, hoje desconhecidas do mercado consumidor, podem, a médio e longo prazo, constituÃrem-se em espécies de importância comercial, principalmente para o pequeno produtor rural. Ao mesmo tempo, poderão trazer benefÃcios para os consumidores através da diversificação da dieta com base em frutas. Desse modo, há um grande campo com potencial a ser explorado para a inserção de novas espécies em sistemas produtivos.
Diante desse cenário, fica evidente a necessidade de estudos que visem a preservação e o aproveitamento de espécies frutÃferas nativas nos sistemas de produção agrÃcola. Atualmente, a exploração é essencialmente extrativista e, muitas vezes, predatória, tornando-se imprescindÃvel que o cultivo delas seja iniciado. Entretanto, na maioria dos casos, cultivos comerciais não podem ser iniciados em decorrência do pouco conhecimento sobre a distribuição da variabilidade genética; falta de informações sobre técnicas de cultivo e propagação e, também, sobre o crescimento e desenvolvimento dessas espécies.
Em muitos casos, além de serem preservadas e estudadas em seu habitat, espécies nativas devem ser mantidas em coleções, com o objetivo de aumentar a conservação, para que possam passar por um processo de seleção de clones visando o inÃcio de seu cultivo e também o melhoramento genético.
Do ponto de vista do melhoramento genético, a seleção de matrizes ou clones com caracterÃsticas superiores dentro da grande variabilidade existente na natureza, e a introdução destes clones em coleções de trabalho - onde possam ser avaliados e caracterizados -, é uma das primeiras atividades a serem realizadas. Muitas vezes, a seleção de uma matriz com caracterÃsticas superiores pode viabilizar o inÃcio de desenvolvimento de um novo cultivo.
Nesse contexto, estudos visando a preservação de espécies nativas e a busca de soluções que viabilizem a sua exploração de forma não predatória são fundamentais. Da mesma forma, são fundamentais estudos visando a seleção de genótipos superiores; conhecimento da variabilidade na propagação por sementes; estudos para encontrar uma técnica adequada de propagação vegetativa; estudos sobre a biologia reprodutiva; sistemas de condução; manejo e poda das plantas, bem como para acompanhamento da ocorrência de pragas e insetos.
*Rodrigo Cezar Franzon (rodrigo.franzon@cpac.embrapa.br) é pesquisador da Embrapa Cerrados (Planaltina-DF). Graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestre e Doutor em Fruticultura de Clima Temperado pela Universidade Federal de Pelotas.
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